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Pedro Rolo Duarte

15
Jul12

Não dá

(Crónica originalmente publicada na revist Lux Woman)

 

Era uma longa fila de gente que não posso caracterizar uniformemente. Havia políticos, artistas, anónimos cidadãos, amigos. Havia gente de todas as áreas, de todos os géneros. É sempre assim na tensão de um velório ou de um enterro, risos e lágrimas misturam-se nervosamente num ar contaminado de tristeza. Mas neste caso parecia que o universo de possibilidades se desmultiplicava, pela diversidade de pessoas presentes - logo, a diversidade de histórias por contar e cruzar.

Era a longa fila para nos despedirmos de Miguel Portas.

Já passou algum tempo, eu sei, mas regresso a esse momento porque foi ali, naquele breve e triste instante, que fiquei a pensar neste paradoxo da vida: é por ela terminar que aferimos, por fim, a relevância dos que nos rodeiam. Não por cinismo ou negligência, não por distância ou aparência – mas porque a morte é, entre tantas coisas que tanta gente já disse que é, um ajuste de contas com a vida.

Na fila de tanta gente, eu sabia rigorosamente porque estava ali: sou amigo pessoal de mãe Helena, a gargalhada mais rica de Lisboa; colega da Catarina,  e admirador incondicional do seu talento; o Paulo foi um dos meus directores de eleição, e admiro-lhe a forma como vive a vida dedicadamente; e o Miguel, bom, o Miguel ensinou-me muitas coisas nos tempos do comunismo, e fomo-nos encontrando ao logo dos anos como colegas, entrevistado e entrevistador.

Foi nesta mistura infeliz de sentimentos que, por instantes, me senti feliz numa fila de infelicidade. Raras são as famílias que conseguem o pleno da criatividade, do talento, da sabedoria. Esta soma de Portas e Sacaduras Cabral é seguramente uma delas. E não falando ainda do arquitecto Nuno Portas, de que só conheço o talento da obra pública.

Estava na fila para o abraço sentido àquela família desfeita por uma morte precoce e injusta. E foi quando me lembrei do “não dá”.

O “não dá” nasceu no dia em que, de férias, há muitos anos, eu e o meu amigo Miguel percebemos que havia uma expressão que queria dizer rigorosamente coisa nenhuma, e que podíamos aplicar numa infinitude de situações, com sucesso garantido. Um convite para jantar, um beijo pedido, uma proposta de trabalho, o fim de um namoro, um prefácio para um livro, uma conferência numa escola, um chato a vender lenços na rua.

A expressão é essa: “não dá”.

Pode ser apenas “não dá”.

Ou “não dá!”

Ou “Nãooo dáaaa!”

Pode ser gritada. Sussurrada. Pedida. Exclamada. Oferecida.

“Meu amor, não dá!”

“Porra, não dá!”

“Tas parvo ou quê, não dá!”

“Nem penses nisso, não dá!”

Aos gritos: “não dá!”

Ao ouvido: “não dá!”

De fugida: “não dá!”

Nós treinámos todos os “não dá” possíveis. Tornámo-nos profissionais do “não dá”, e não apenas aplicávamos nos momentos dramáticos das noites de Verão na Zambujeira do Mar, como passávamos noites de gargalhada com esta tão simples e adolescente patetice: “não dá”.

Há coisas tramadas. Nestes dias que têm passado, o “não dá” voltou a encontrar-se comigo. A diferença é que desta vez é a sério. Penso que “não dá” quando olho nos olhos a Helena Sacadura Cabral, grito “não dá” – e é revoltado, é sofrido, sai de dentro sem qualquer espécie de graça ou brincadeira – quando falo ao telefone com o Miguel e sinto que esse bicho que se meteu com a Maria João não vai vencer. Também não dá quando me falam do Fernando Lopes e não dá este fim de linha do Bernardo Sassetti.

A brincadeira tornou-se séria, Miguel. Agora é a sério: não dá. É nisso que penso nesta fila em que já não vale de nada o “não dá” para o Miguel, mas vale seguramente para a Maria João.

Não dá. Tantas vezes funcionou, não foi? Pois foi. Tem de funcionar outra vez. Não dá.

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