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Pedro Rolo Duarte

17
Ago12

História breve de um engano

Quem tem filhos a viver longe de Portugal pode perceber o que vou contar.

Assim:

Quando vi que o Expresso ia oferecer, em fascículos, a História de Portugal coordenada por Rui Ramos – já editada em livro, que não li e sobre o qual só conheço recensões elogiosas... -, pensei que era um bom presente para enviar para a Austrália, na lógica de manter ligação ao país com um adolescente que, sei eu, não apenas tem um gosto profundo pela leitura, como se interessa por História e mesmo por Política. Tinha tudo a ver. Acho que conheço bem o meu filho, vá.

Já antes tinha mandado um livro (de autor estrangeiro, verdade) de espionagem, mas traduzido em português – um modesto contributo para alimentar o gosto e conhecimento da língua-mãe num lugar onde essa língua é de todo ignorada. Agora comecei a juntar os livrinhos oferecidos pelo jornal para enviar quando completa a colecção. Hoje mesmo fui recuperar o 5º capitulo, que me tinha escapado em férias. A intenção era mandar os primeiros agora, os restantes em Setembro. O dia não deu para tudo e a ida ao correio ficou de fora.

Em boa hora.

As crónicas que Manuel Loff, também historiador, escreveu para o Público, a segunda delas publicada ontem, e lida agora mesmo, travaram a tempo o meu impulso. Não é preciso ser de esquerda, nem de direita, nem de coisa nenhuma, para ter um olhar “menos-que-absurdo” sobre o regime de Salazar. Não me passava pela cabeça que uma História de Portugal caucionada pelo Expresso, e lançada com pompa e circunstancia há algum tempo, assinada por um historiador que a imprensa, em geral, tem referido como um homem sério e rigoroso, branqueasse a ditadura de Salazar ao ponto a que denuncia Manuel Loff.

E é óbvio que:

Não, eu não quero mandar ao meu filho uma História de Portugal onde o regime da Salazar é descrito como “uma espécie de monarquia constitucional, em que o lugar do rei era ocupado por um Presidente da Republica eleito por sufrágio directo e individual”, que “reconhecia uma pluralidade de corpos sociais (...) com esferas de acção próprias e hierarquias e procedimentos específicos”, e onde se ignoram as fraudes eleitorais que contribuíram para a morte de Humberto Delgado e perpetuaram o regime e a ausência de oposição, além da policia politica e das prisões que mancharam de sangue e morte prisões como a do Tarrafal. Um regime que, bem vistas as coisas, nem ditadura foi e da violência fez parcimonioso uso...

Não, eu não quero mandar ao meu filho uma História de Portugal onde nunca se usa a expressão “guerra colonial”, e se escreve que a “a opção (de recusa de sair das colónias) não pareceu inicialmente excêntrica na Europa” porque “a retirada europeia da África só começou em 1960”.

Não, eu não quero mandar ao meu filho uma História de Portugal onde a guerra colonial é reduzida à expressão “guerrilhas” e “foi aceite pelos portugueses”.

Não, eu não quero mandar ao meu filho uma História de Portugal onde se ignoram os sindicatos livres ilegalizados e perseguidos, onde se menosprezam as perseguições e prisões políticas, as torturas, as mortes, os partidos na clandestinidade e a proibição da organização politica e civil em geral, e se reduz o Estado Novo a um brando regime de certa forma equiparado ao que se viveu em toda a Europa no primeiro terço do século XX.

Não, eu não vou mandar ao meu filho esta História de Portugal que Rui Ramos coordenou e o Expresso agora publica.

Não posso deixar de encarar com alguma tristeza que o mesmo jornal que, antes e depois da revolução, soube ver Portugal com inteligência e olhos de ver, seja agora o mesmo que promove este olhar falacioso, para não dizer mentiroso, sobre o século XX português.

Em boa hora Manuel Loff me acordou para o embuste. Que vergonha, meu deus.

Vou ler só para perceber até onde pode ir esta original mas pouco séria forma de reescrever a História.

 

(António Maria, fica tranquilo: vou encontrar uma História de Portugal séria para te mandar. Não precisa de transformar Salazar e Caetano em demónios e o 25 de Abril em redenção – basta que seja uma História séria, justa, e sensata. Logo que a encontre, envio por correio verde internacional, que é das melhores invenções que os CTT nos proporcionaram...)

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