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Pedro Rolo Duarte

22
Ago12

José Manuel Fernandes, Rui Ramos, e a História de Portugal (parte 150...)

Passado o impacto inicial, e as reacções que este meu post motivou, mais as sequelas que se podem ler aqui e aqui, devo dizer o seguinte, sem prejuízo de posteriores avaliações…

 

1. É verdade que não devia confiar cegamente nos colunistas de um jornal – neste caso, o Publico -, só porque publicam num diário de referência e isso pressupõe uma série de pergaminhos prévios. Têm razão os que me criticam por isso - embora, como jornalista que sou (por mais que isso irrite José Manuel Fernandes), tenha tendência a confiar na seriedade do trabalho impresso em papel, mesmo assinado pelos que dão apenas opinião. Quando a opinião se sustenta em factos, pede-se que, no mínimo, os factos sejam verdadeiros. Até para que as opiniões possam ser mais livres.

 

2. Mesmo sabendo que num artigo de opinião a tentação de misturar (e nessa mistura adulterar), factos com opiniões, é quase irresistível, persisto na ideia de que os jornais não publicam apenas por publicar, abdicando do seu dever de escrutinar a sustentação dos artigos que editam. Por isso, não deixo de sonhar com o dia em que jornais com a qualidade do Público contemplem nos seus quadros “verificadores de factos”, actividade que os jornais anglo-saxónicos cultivam (ou cultivavam...) com sabedoria. A idade não perdoa: eu já posso dizer que sou do tempo em que só alguns chegavam às páginas de opinião dos jornais de referência. E eram os melhores, de Gaspar Simões a Prado Coelho, de Cunha Rego a Vicente Jorge Silva, de Vasco Pulido Valente a Benard da Costa.

 

3. A ver pela resposta de Rui Ramos no Público de ontem, parece que fui mesmo um dos enganados. Mas desta vez não me precipito no desabafo (estamos sempre a aprender...): depois de ler com os meus próprios olhos, cá virei prestar contas. Vou esperar pelos últimos “fascículos” da História de Portugal para ver se efectivamente errei ao afinar pelo diapasão tão polémico de Manuel Loff. Cá estarei para dar o braço a torcer e pedir desculpa, ou erguer o punho (sem qualquer segunda intenção…) e manter tudo o que escrevi. Uma das coisas boas da idade, e de muitos anos a errar para viver a felicidade de acertar, é mesmo a humildade – a que posso juntar o fim do orgulho cego e da ambição ansiosa.

 

4. De qualquer forma, tenho de confessar a minha desilusão em relação a José Manuel Fernandes. Não o julgava na senda de Cavaco e do "nunca erro e raramento me engano". A forma como abordou o tema foi de tal forma taxativa, presumida e insolente que subitamente me pareceu mais juvenil do que alguma vez julguei. Trata-se de um jornalista cujo passado admiro, com quem estou de acordo em muitas circunstâncias, e que não tinha na conta de “trauliteiro” que põe em causa a identidade profissional de um jornalista com algumas dezenas de anos de trabalho, só porque está em desacordo com ele.

 

5. O meu balanço desta polémica, para já, é estupidamente simples: cada vez escrevo menos sobre o universo politico e social porque, na directa proporcionalidade, me desiludo mais a cada vez que por aí vou. Parece que tudo se resume a uma guerra entre trincheiras claras. Ora, eu sou livre e não estou de lado algum. Opino ou comento ao sabor do que me parece certo, justo, sensato, ou plausível. Não olho a partidos nem vou atrás de uma qualquer esquerda ou direita. Os socialistas acham que sou um “renegado”. Os conservadores chamam-me comunista. Eduardo Cintra Torres disse há anos que eu era um “novel Santanete”. Os meus conhecidos do PSD acham que sou socialista, até porque apoiei António Costa em Lisboa. Fui Guterrista, votei uma vez em Sócrates, dei um voto de confiança a Passos Coelho. Sou independente – por isso, estou sempre a perder. E recusei – com excepção de um gesto de amizade, que durou seis meses, com a Edite Estrela em Sintra, há quase 20 anos... - TODOS os convites que tive para ser assessor, chefe de gabinete, palpitador, escrevinhador, criativo ou apenas autor de livros de pessoas que passaram pelos Governos de Portugal.

 

6. No entretanto, e depois de tanto insulto gratuito, percebo que mais vale escrever sobre a Austrália, os discos e livros de que gosto, ou sobre receitas de Gaspacho – e deixar as ideias e opiniões sobre o mundo que vivemos para o debate entre amigos. Onde tudo é sério, respeitoso, e ainda se aprende qualquer coisa.

 

Pronto. Agora voltarei ao tema depois de ler os tais capítulos da História de Rui Ramos. Já o devia ter feito? Já. Mas eu vivo a recibo verde e a austeridade a isso me obriga: esperarei pacientemente pelos fascículos do Expresso. São oferecidos.

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