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Silvia Baptista
Sentido de humor, sentido crítico, inteligência e oportunidade: tudo o que pode fazer de um blog pessoal uma página a não perder.
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“Ao dar a volta ao bilhar grande que é esta blogosfera não consigo deixar de sentir que entrei num gigante shopping center. Antes, digitava o endereço dos blogs para saber as últimas sobre o mundo e os passarinhos. Hoje, há blogs que se tornaram os meus guilty pleasures (...) porque anunciam à pena podre o melhor amaciador de cabelo ao mesmo tempo que discutem saltos altos, cremes anti-rides, e amamentação", Silvia Baptista,
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Quarta-feira, 29 de Agosto de 2012

Este é, em primeiro lugar, um pedido de desculpas ao historiador Rui Ramos e à equipa que, com ele, coordenou e escreveu a História de Portugal que a editora Esfera dos Livros publicou, há algum tempo, e o jornal Expresso decidiu oferecer, em fascículos, ao longo deste Verão. Mas é também, e especialmente, um pedido de desculpas aos leitores deste blog.

No passado dia 17 de Agosto postei o texto que aqui se pode ler. Ao contrário do que noutro blog escreveu o jornalista José Manuel Fernandes, não estava a brincar com a obra – estava a coleccionar os fascículos da História de Portugal (HdP) de Rui Ramos com o objectivo de a enviar ao meu filho, que está a estudar longe daqui -, e o meu post resultou exclusivamente da leitura de crónicas que o historiador Manuel Loff publicou no diário Público. Tomei então como certas algumas considerações que prefiguravam uma grosseira reescrita do nosso Século XX: a acreditar na conjugação entre citações do livro e opiniões de Manuel Loff, a HdP de Rui Ramos classificava a ditadura de Salazar como uma suave monarquia constitucional, ignorava a PIDE, as prisões politicas, a tortura, as mortes no Tarrafal, e dava como certa a existência de eleições livres. Não falando da Guerra Colonial e dos partidos políticos e sindicatos clandestinos.

Como venho agora a comprovar, depois de ler os capítulos que são dedicados a este período da nossa História, precipitei-me e errei. Como blogger, fui a chamada “Maria vai com as outras” – e como jornalista (ainda que aqui, no blog, eu seja apenas o cidadão Pedro Rolo Duarte, não deixo de ser sempre um jornalista...) ignorei olimpicamente as mais básicas regras da minha profissão, confiando na construção (que venho a verificar ser esfarrapada e lamentável) do colunista do Público..

Na verdade, Manuel Loff manipula, extrapola, inventa e deturpa, de forma rasteira e sem pingo de vergonha, o que Rui Ramos escreve. O Estado Novo é descrito ao longo do livro com rigor, ainda que sem militância, como aliás deveria sempre ser. Não se diaboliza a ditadura – como não deixa de se lembrar os males que nos trouxe, chegando a ser comparada com o regime de Mussolini em Itália. O que Rui Ramos fez de diferente em relação a outros tratados sobre a História portuguesa do século passado foi justamente não alinhar nos lugares-comuns da esquerda ou da direita, e deixar antes uma perspectiva enquadrada, distanciada e factual do regime anterior à revolução de 1974, acrescentando ainda um olhar também desapaixonado sobre os anos de 74 a 76, PREC e descolonização incluídos.

Tudo o que Manuel Loff escreveu e criticou no Público pode ser contraditado, desmentido, desmontado, linha a linha, nas páginas da HdP. Talvez valha a pena ler a resposta do próprio Rui Ramos, aqui, para que se perceba até onde foram enganados e manipulados aqueles que leram ingenuamente, como eu, a crónica de Manuel Loff.

Confesso que, a meu favor, só tenho dois argumentos: a assertividade e convicção da prosa de Loff convencem facilmente o leitor mais incauto; e o facto de ter sido editada num jornal de referência, com a qualidade do Público, oferece à partida garantias que não julgava poderem estar em causa.

Nenhum destes factos, porém, muda o essencial: ao embarcar, sem os cuidados necessários, na falácia de Manuel Loff, acabei enganando-me a mim próprio e enganando os leitores deste blog. Fui alvo de duras críticas em diversas plataformas – e, descontando os exageros que assinalei em diversos posts, não deixei de abrir portas a um pedido de desculpa.

Ele aqui está. Com humildade mas, paradoxalmente, com orgulho. Só não parte um prato quem não mexe na loiça.

 

(E uma certeza: mal o Expresso acabe de oferecer os fascículos que compõem o livro, ele segue para a morada do António Maria lá do outro lado do Mundo. Tranquila e livremente, lerá quando lhe der vontade de “passear” um pouco pelo seu país e pela História que nos trouxe até aqui, e a ele... até lá!)


publicado por PRD às 00:45
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31 comentários:
A humildade com que reconhece o erro do seu procedimento e a postura que toma neste artigo ao retratar-se e corrigir a situação merecem a minha admiração... quem me dera que muitos outros interventores na sociedade agissem com esta ética nas suas posições públicas.

deixado em 29/8/12 às 08:59
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Joao Melo Alvim
Não vou dizer que não fiquei surpreendido com o seu 1º post atendendo à sua habitual ponderação, serenidade e honestidade intelectual. Por esses motivos não fico de todo surpreendido com este. Errar todos podem errar. Reconhecê-lo é mais difícil. Parêntesis encerrado.

deixado em 29/8/12 às 09:46
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pedro
louvo a sua atitude e passarei a lê-lo com muita atenção e como uma pessoa credível. Parabéns !

deixado em 29/8/12 às 10:10
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JPT
Para si, só uma palavra: KUDOS! Num país onde ninguém assume que erra e em que fica mal pedir desculpa, este seu texto é um monumento.

deixado em 29/8/12 às 10:28
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clap clap clap!

deixado em 29/8/12 às 10:56
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joao
Muito bem!

deixado em 29/8/12 às 11:11
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cristina
Errar todos erram. Nem todos conseguem ter a humildade de o assumir e pedir desculpa.

Mais uma vez o Pedro Rolo Duarte a provar que, para além de excelente jornalista, é gente séria, é gente boa.

Um abraço, de quem não o conhece pessoalmente, mas de quem o lê, há muitos anos.

Cristina Silva

deixado em 29/8/12 às 12:56
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fernando melro dos santos
Pedro, bem-haja pela assumpção. Só discordo quando chama ao Publico jornal de referência, pois hoje não passa de um antro panfletário albergue de bloquistas pueris e levianos.

deixado em 29/8/12 às 13:29
responder a comentário | discussão

Luísa
Aprecio a obra de Rui Ramos e gostei do pedido de desculpas.

Também discordo, qual referência? Quando um jornal se torna obtuso e subserviente ...

deixado em 1/9/12 às 09:44
responder a comentário | início da discussão

Este é um verdadeiro exemplo que todos deviam de seguir. Admitir um erro e pedir desculpas infelizmente não é para todos... Por isso continuarei a passar sempre por cá e a ler as suas crónicas da woman. Parabéns!

deixado em 29/8/12 às 13:35
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Também lhe dou os parabéns pela Humildade demonstrada, que só Caracteriza Pessoas de Carácter e de Bem!
Ainda não li a obra de Rui Ramos, mas creio que, certamente, para haver tanta polémica,é porque veio destronar teorias cristalizadas no tempo, o que sempre provoca uma salutar abertura do espaço público à polilogia, a base de uma real democracia, ainda longe de ser actualizada!

deixado em 29/8/12 às 14:04
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