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Pedro Rolo Duarte

20
Out12

Primeiras impressões

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. Uma edição novinha em folha já está nas bancas...)

 

Há frases que fixamos na juventude e que se arrastam atrás de nós pela vida fora, sem que saibamos bem porquê: farão sentido? Constituem lições de vida? Marcaram-nos e por isso ficaram no “disco rígido” que nos garante as lembranças?

Nunca saberei, porque a memória que me habita é aleatória e escolhe guardar registos estranhos – todas as matrículas dos carros do meu pai, desde o Fiat-1500 HL-55-85 dos anos 60... – e esquecer momentos relevantes, ou mesmo nomes de pessoas que efectivamente contam.

Às vezes dá jeito, ou é divertido, viver com uma memória trôpega. Não deixa, porém, de criar conflitos, equívocos, enganos, que não dão jeito algum nem divertem quem os subscreve. Passo por arrogante ou malcriado porque nem sempre reconheço quem devia, ou sei o nome próprio de quem supostamente deveria apresentar socialmente, passo por negligente porque a memória apagou um evento relevante, e pertenço ao universo dos fúteis que sabe de cor o dia em que a princesa Diana casou. Explicar isto é como descrever o big bang: pode fazer-se, mas ninguém acredita. Aliás, ninguém liga.

Assim sendo, vivo numa espécie de memória hippie, cool, que escolhe os ficheiros que presume sejam úteis, e atropela alegremente temas e factos que realmente são do meu interesse. É por isso que há anos deixei de confiar nessa tal frase que alguém me disse na juventude e que ficou gravada cá dentro. Diz assim: “não há uma segunda oportunidade para uma primeira boa impressão”. Ainda coloquei a frase no Google, mas fugi logo: apareceram-me documentos sobre Pedro Passos Coelho e referências a uma empresa de impressão e fotocópias...

Volto ao começo: Há frases que se arrastam atrás de nós pela vida fora, sem que saibamos bem porquê: farão sentido? Esta será uma delas? Por que raio não damos uma segunda oportunidade a uma primeira boa impressão? Errar não é humano?

Os anos passam e ganho um olhar diferente sobre o tema. Uma primeira impressão é hoje, para mim, parecida com a mais rigorosa noção que subscrevo do jornalismo: um rascunho do que acontece. Uma vaga ideia da realidade. Conta-se o que sucede, ou sucedeu. É a primeira impressão.

Percebo que confiemos na nossa intuição e, nesse contexto, há sinais que podemos reconhecer num primeiro contacto e que marcam a imagem com que ficamos dos outros. Mas daí até à ausência de uma segunda oportunidade...

Ao contrário do que esperava, a idade não me deu maior descontracção e paz na exposição pública. Pelo contrário: ter de falar em televisão ou rádio, actividades que fazem parte do meu ofício diário, ganhou tensão, ansiedade e inquietação. Há 27 anos, quando apresentei pela primeira vez em directo um programa de televisão, a inconsciência de estar a falar para centenas de milhares de pessoas não mexeu comigo mais do que o friozinho na barriga das estreias. Passados todos estes anos, estou muito pior: mais tenso, cada palavra é medida como se se tratasse de uma escritura. Há 30 anos, a minha primeira impressão era confiante e segura. Porque era inconsciente e imatura. Hoje, a primeira impressão que possa causar será menos confiante, acima de tudo com menos certezas. Sinto-me mais maduro, logo, com mais dúvidas do que certezas.

A idade tira-nos em certezas o que nos dá em capacidade de aceitar uma segunda impressão. E por isso torna falsa a frase feita do começo desta crónica: há uma segunda oportunidade para uma primeira boa impressão? Talvez não. Mas para uma segunda boa impressão, estou certo que sim. E isso vale mais.

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