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Sábado, 23 de Fevereiro de 2008
Enquanto na música, no cinema, na televisão, para citar só três áreas, a crítica manifesta opinião sobre praticamente tudo o que é editado ou exibido, sem exceptuar nessa apreciação o que é pimba, popular, de massas ou de gosto duvidoso, já na literatura parece não haver tempo nem espaço para todos os livros que saem. Não me surpreende, porque são muitos – mas surpreende-me que os excluídos do olhar crítico sejam sempre os mesmos, sejam os do costume. São os que vendem mais, os mais apetecidos pelo público, os que no estrangeiro fazem os tops de vendas.
Exemplos recentes: que eu tenha visto, não se escreveu uma linha sobre o livro póstumo de Mario Puzo («Omiertá»), escreveu-se muito pouco sobre «Um Homem em Cheio», de Tom Wolfe, até ao momento nem uma linha sobre o livro de Miguel Sousa Tavares (em primeiro lugar nas vendas em Portugal), pouco ou nada sobre os três livros já publicados por Margarida Rebelo Pinto (qualquer coisa como 200 mil exemplares vendidos...),nada sobre "Responde-me", o mais recente sucesso de Susana Tamaro, ou sobre os livros de Paula Bobone, de Jefrrey Archer, de Thomas Harris, de Isabel Allende, de António Sala (quem sabe que ele tem um romance publicado desde Dezembro?). Fico por aqui. Poderia citar mais uns 20 nomes. Todos misturados? De Portugueses e estrangeiros? De aeroporto e de casa de banho? Bons e maus? Sim, todos misturados. Como sucede se forem ver o cartaz de cinemas deste mesmo jornal. Ou de outro qualquer.
E o problema é este: ao contrário do que sucede nas páginas de cinema ou de música da imprensa, há na área da literatura um ódio visceral ao «livro comum», o que está nas livrarias e vende, o que as pessoas compram. Não se diz mal nem bem – pura e simplesmente, não se diz nada. Em quatro anos, várias vezes tenho tentado que os excelentes colaboradores do suplemento que dirijo vençam o preconceito – mas nem sequer consegui ter um artigo que encomendei sobre os fenómenos literários, portugueses e estrangeiros, do tipo Rebelo Pinto/Rita Ferro. Eu nem queria que o artigo fosse crítico – queria uma análise, queria que o top de vendas de livros tivesse um reflexo nestas páginas. Não consegui nada. No passado como no presente, com ou sem Gaspar Simões, com ou sem a franqueza de Prado Coelho, a verdade é que os críticos literários não querem saber dos «livros normais» - e se lhes chamo assim, é porque não sei mesmo como lhes chamar para os distinguir daqueles que, estando em geral no mais recôndito canto das livrarias, têm nos jornais a honra da opinião dos entendidos. E não me venham com o argumento de que, por serem excelentes e pouco conhecidos, merecem maior atenção. Se isso fosse válido, tornar-se-iam um grande sucesso.
Pior do que uma má crítica é a indiferença. E quando ela resulta do desinteresse e se aplica a um caso de sucesso, como parece ser o caso, estamos a fazer mal o nosso trabalho. Não deixo de achar extraordinário que Margarida Rebelo Pinto, a recordista de vendas do ano 2000, tenha sido liminarmente ignorada em todos os balanços do ano que os jornais fizeram. Estamos perante um fenómeno – mas, a acreditar na imprensa, estamos perante um vazio. Eu acho grave que esta discrepância suceda.
Estamos a ignorar dezenas de milhares de leitores de livros que, nas suas escolhas, passam ao lado da crítica literária. Ao fazê-lo, estão a passar ao lado da imprensa. Quando ignoram os gostos do público, os críticos estão a pedir que sejam ignorados. Os jornais, também. A ver pelos tops de vendas, são mesmo. Eu não queria que isto continuasse assim. Com ou sem capelinhas, com ou sem polémicas.
 
Aos sábados, reedições.

Na sequência de uma polémica entre António Cândido Franco e Eduardo Prado Coelho, publiquei este texto no DNA em Março de 2001. Pouco tempo depois acabei mesmo, no suplemento, com o espaço dedicado aos livros, por entender justamente que não reflectia o mercado. Não mudei de ideias nestes anos, ainda que admire, aprecie e respeite as opções dos colaboradores extraordinários que tive naqueles anos...



publicado por PRD às 00:48
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5 comentários:
Será que estamos esquecidos que há uns anitos atrás éramos um país de analfabetos?

O fenómeno dos "livros normais" pôs muito boa gente a ler, muitos milhares de novos leitores que até aí só liam os livros da escola (que eram obrigados) e as "gordas" das revistas e jornais.

Não é prática comum dizer-se "começa pelo princípio"?
Muitos destes chegarão ao Stendhal, ao Gorki e ao Dickens, mas o princípio, para os olhares críticos, tem de passar obrigatoriamente pelos eleitos, senão não vale?

A sua ideia de que a indiferença é pior que uma má crítica, faz-me vir à mente a imagem "vem aí um pedinte outra vez chatear-me, será que não se enxerga?"

Achamos que se enfiarmos a cabeça na areia, ou se olharmos sempre em frente e nunca para os lados, tudo passa sem nos fazer mossa.

Quando as situações fogem do nosso controle e entendimento, preferimos fingir que não vemos.

Ai esta maldita dor de cabeça! Mas não vou tomar uma aspirina que isto vai passar!

Teimosia. Vaidade. Altivez. Presunção.

Muito feio!

deixado em 23/2/08 às 01:39
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Estou absolutamente de acordo com o PRD(*).
O pedantismo serôdio ainda impera em sectores da Crítica cá do rectângulo, em especial na que se dedica à Literatura. Não podemos considerar "normal" que se ignorem os livros mais vendidos. Devem ser lidos, analisados, elogiados ou arrasados. Sem preconceitos nem julgamentos a priori.

Até o Santo Ofício tinha por costume ler as obras antes de condenar os infelizes autores a sentir na pele - ainda na vida terrena - as chamas que infalivelmente os esperariam no Inferno.

(*) Ora aqui está uma frase que há cerca de 20 anos nunca me ocorreria dizer... por receio de ser tido como apoiante de Eanes e sus muchachos :-)

deixado em 23/2/08 às 03:08
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Carlos BarbosaOliveira
Um dia, por esse tempo que descreves, frequentava um curso de pós-graduação em técnicas editoriais e tive a veleidade de afirmar que compreendia o sucesso dos livros de Paulo Coelho. Mais, disse que tinha lido dois ou três livros dele e não os achava tão miseráveis como alguns os pintavam.
Na sala quse todos arregalaram os olhos de espanto, mirando-me como se fosse um extra-terrestre. O professor deu uma aula de cinismo tentando enxovalhar-me.
Uns dias depois percebi que dos meus colegas , apenas dois já tinham lido Paulo Coelho e que os restantes apenas diziam mal dele... porque sim!
Somos portugueses, somos "poucochinho" gostamos de andar ao sabor das modas e detstamos pensar por nós próprios. Infelizmente, a maioria dos críticos(?) literários em Portugal não passam de Cátaros pedantes.
Um abraço

deixado em 23/2/08 às 14:13
responder a comentário | discussão

Anónimo
Humhum.
:)

deixado em 23/2/08 às 22:45
responder a comentário | início da discussão

A critica deve fazer apreciação de todo o panorama, e explicitar a sua opinião com critérios consistentes (e de preferência evitando linguagem que só especialistas dominem). Muitas criticas parecem ter sido escritas com a mentalidade "se não gostam do que eu gosto é porque são ignorantes e incultos", e não acho que isto seja uma boa forma de interessar as pessoas pela leitura das obras que se quer promover. Pessoalmente não me parece que este tipo de desprezo pelos outros seja recomendável a qualquer ser humano, mas os responsáveis dos media que lhes pagam lá sabem.....

deixado em 24/2/08 às 10:26
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