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Pedro Rolo Duarte

21
Nov12

A cantiga do desgraçadinho

Uma matéria do Público, editada na segunda-feira, e que podem ler integralmente aqui, começava assim: “Há semanas, a cantora Teresa Salgueiro, ex-Madredeus, actualmente com carreira a solo, lamentava na sua página do Facebook a "grande dificuldade" que as rádios de cobertura nacional revelavam na passagem do seu álbum O Mistério. O assunto não é novo. Há muito que músicos portugueses sentem que as rádios deveriam ter um papel mais activo na divulgação da música portuguesa e nem mesmo a imposição de quotas obrigatórias parece ter alterado esse sentimento”.

Seguia-se uma página de jornal de lamento e critica porque a rádio não divulga música portuguesa. É certo que, no meio da matéria, lá se dizia que a Antena 1 passa 90% de música portuguesa, que a Antena 3 passa mais de 40%, que há uma Rádio Amália (privada) exclusivamente cantada em português, para citar os três exemplos mais flagrantes.

Mas a verdade é bem mais simples: nunca, como hoje, a rádio constituiu o veículo mais aberto a todas as espécies de música. Longe vai o tempo em que o jazz ou o fado estavam confinados a programas esotéricos a horas indecentes. Longe vão os tempos em que as programações das rádios eram dominadas por uma elite de promotores de editoras multinacionais. Longe vão os tempos da ditadura musical das rádios, que efectivamente menosprezava alguma música portuguesa. E digo longe, contra mim falando, que sou desse tempo e sei que foi há muitos anos, o que me coloca numa improvável posição de sénior na matéria. Não interessa nada.

Hoje, das rádios exclusivas da net às estações temáticas, das rádios públicas às estações especializadas, para todos os tipos de consumidores, idades, estilos, tendências, só não “passa” numa rádio “perto de si” (ou “perto do seu computador”), quem realmente tem pouco para cantar, dizer, ou fazer.

É de uma tremenda injustiça – chega a ser desonesto faze-lo... – acusar a rádio de não divulgar a produção nacional. Qualquer das grandes revelações dos últimos anos, de Carminho a Luísa Sobral, dos Deolinda aos Real Combo, dos Ovelha Negra aos The Soaked Lamb, podem desmentir esta acusação.

Mas o discurso de alguns artistas – que eu já ouvia quando me meti nestas alhadas, há 30 anos... – muda menos do que o discurso dos políticos com quem aparentemente aprenderam.

Lá está: aprendem com quem não devem. Até porque, na maioria dos casos, dão muito melhor música do que os professores que lhes ensinam os mais velhos chavões da cantiga do desgraçadinho.

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