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Pedro Rolo Duarte

25
Fev08

A esquerda à direita (ou vice-versa)

Não é com alegria que o digo: depois de uma militância apaixonada e dedicada entre os 12 e os 15 anos, nunca mais consegui sentir-me politicamente mobilizado. Seja por um Partido ou por um líder. Os últimos 28 anos podem ser ilustrados pela imagem de alguém que vagueia sem destino, à mercê de desejos simples: um bocadinho de sol, uma sombra fresca, tudo demasiado suave e brando. A convicção mora longe, o crédito foi vencido pelo tempo. Votei sempre, mas nem sempre quis votar.
Pontualmente, acreditei em pessoas (Guterres, uma vez; Sócrates, uma vez; Mário Soares, uma vez; Maria José Nogueira Pinto, uma vez) e votei em causas. Quase sempre me desiludi. Quase sempre me desiludiram.
Houve no entanto algumas figuras destes 30 anos de liberdade que, por razões diversas, estiveram distantes do meu voto, mas que me mereceram admiração, respeito, e nalguns casos vontade de voltar a acreditar. Durante anos, vivi mergulhado num preconceito que me impedia de votar à direita, mesmo que lhe reconhecesse o mérito e o sentido do voto, mesmo que muitas vezes pensasse à direita. Felizmente, curei-me desse mal de “infância esquerdista” – mas o resultado dessa cura foi tornar-me inclassificável. Há poucos anos, um critico de televisão analfabeto referiu-se a mim dizendo que eu era um “novel santanista” – ao mesmo tempo que no PSD de Santana eu era considerado um socialista militante. Ainda hoje é assim: os meus amigos socialistas dizem que sou de direita, e à direita dizem que sou socialista.
(Acho que tenho perdido algumas “oportunidades” de trabalho por causa desta indefinição, mas paciência: entretanto vou pensando livremente...)
Bom, tudo isto para chegar a um homem em quem varias vezes quis votar. Mas não votei. E quando finalmente me curei desse “complexo de esquerdite”, era tarde: tinha partido sem que eu tivesse tempo de me redimir. Falo de Francisco Lucas Pires. Morreu há dez anos.

E não podendo voltar atrás no tempo, posso pelo menos dar nota do blog que os seus filhos criaram para recuperar a memória do pai, os seus pensamentos, textos, discursos. Fica em http://franciscolucaspires.blogspot.com/ e lá encontrei pérolas como esta:
“A “verdade” politicamente correcta é “doce” e “mole”, isto é, está mais preocupada com a qualidade de vida, por exemplo, do que com a vida propriamente dita. O seu compromisso é aliás, mais com a felicidade do que com a verdade. Por isso não quer incomodar. (...) É uma “verdade de situação”, isto é descartável, dúctil ou volúvel, quase como um “transformer”. Refere-se mais a tendências do que a princípios. É provisória e reconhece-se nas sondagens mais do que nos tratados de filosofia moral ou através de programas políticos. Não aspira a longo prazo. A política tornou-se menos “programática” e mais “pragmática” e o próprio direito se tornou “reflexivo”, interdependente do destinatário e do endereço”.
Francisco Lucas Pires talvez não fosse o mais “eficaz” dos políticos – mas era um livre pensador que a direita nem sempre compreendeu e a esquerda esteve impedida de admirar. Tenho a certeza de que faz falta ao Portugal de hoje.

Gostava de poder votar nele um destes dias.

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