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Pedro Rolo Duarte

25
Jan13

O “novo” sexo

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A deste mês já está à venda, e bem, com a capa que aí mostro...)

 

Sim, eu também fui ler “As 50 Sombras de Grey”. São mais de 40 milhões de livros vendidos em todo o mundo, é uma saga que arrasta leitores do primeiro para o segundo volume, e daí para o terceiro, está a ser adaptada ao cinema, e não quis ficar de fora. Em todos os sentidos.

Quis perceber o fenómeno, quis entrar no universo que tem extasiado tantas mulheres, e quis ver até que ponto a vida sexual da minha geração tem sido desinteressante ao ponto de cativar leitores para um livro onde o sexo é quem mais ordena. Ou, numa pergunta: que tipo de sexo, ou de linguagem, ou de fantasia, poderia atrair para estes livros a geração a que pertenço?

Sei bem que são três volumes e o meu interesse morreu no primeiro – mas também sei que não estava sozinho. Mais ou menos ao mesmo tempo, amigas e amigos liam E.L.James, debatiam o livro, e boa parte deles chegava ao mesmo fastio a que cheguei...

... Na verdade, o primeiro volume da saga escrita por E.L. James é uma mistura de novela da Globo com Casa dos Segredos: tem tanto de amor proibido como de voyeur, e tudo radica nos universos onde se movem as personagens - uma pobre no universo de um rico, uma novata nas mãos hábeis de um sabido, uma virgem no mundo do mais ligeiro Sado-masoquismo. Ora, isto é o segredo da telenovela: misturam-se os extremos e dá drama, dá confronto, dá emoção. Logo, dá história.

Mas não dá mais nada. Se realmente quisermos falar de sexo e literatura, ou de erotismo e literatura, mais vale ir aos clássicos, de Henry Miller a Nabokov, passando pela incontornável Anais Nin, todos eles mais ousados e menos óbvios do que os corredores das sombras de Grey – ou então cair no outro lado do colchão e recuperar Catherine Millet, a mulher que descreveu a sua vida, muito vivida, em A Vida Sexual de Catherine M., totalmente escancarada, no melhor e no pior.

Porém, apesar do eventual exagero à volta da trilogia, parece-me que o fenómeno Grey é apenas a ponta do iceberg de algo mais interessante – aquilo que a revista (feminina) de sábado do jornal El Pais abordou recentemente sobre o mote “o novo papel da mulher (no sexo): de objecto passivo a sujeito activo”. Já sabemos como se faz jornalismo neste patamar - a palavra “novo” atrás de qualquer outra ganha dimensão de “dossier de imprensa”: o “novo sexo”, a “nova velhice”, os “novos jovens”, o “novo mundo”. O “novo” é a mais velha palavra que renova as matérias que já ninguém suporta...

Dito isto, lido o dossier do El País, com o sucesso Grey à mistura, e passando pelos estudos que se vão fazendo sobre o pasto para toda a espécie de envolvimentos que plataformas como o Facebook e o Badoo constituem, é indiscutível que o sexo, a nossa vida sexual, voltou a estar em cima da mesa, para debater ou apenas redescobrir. Dizem que os momentos de crise são dados à depressão – mas também dizem que são dados ao excesso, ao “perdido por cem, perdido por mil”. Não deixo de notar o regresso em força do culto da homossexualidade feminina na moda e na publicidade, e o número dos que vem defender que toda a sexualidade é, afinal, bissexual, aumenta de tal maneira que começa a ser difícil escapar a esta onda.

Está a começar um novo ano, dizem que vai ser o pior das últimas décadas. Apesar de tudo, mantenho uma réstia de esperança e luz: se for o ano de todos os pecados, se for o ano que prolongue para norte do Equador a velha frase de Chico Buarque – ele cantava “Não existe pecado do lado de baixo do equador/ Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor”... -, podemos pelo menos dar largas à fantasia, à imaginação, e não cair na asneira de dar razão ao actor Kevin Costner, que sobre o que é realmente importante na vida, disse: “a água fresca é tudo”. Não, não é. E não são precisas sombras para ter a certeza...

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