Blog da semana

Geringonça
O nome é inspirador. O blog colectivo explica-se: “A Geringonça é um exercício colectivo de opinião à esquerda e informação às direitas, orientado por uma agenda que todos entendemos ser necessário discutir publicamente, independentemente da esquerda que aqui nos trouxe. Por isso, não se surpreenda se aqui vir, às claras, tantos pontos de convergência quantos de discussão. Nós chamamos-lhe progresso". Promete e já está nos meus favoritos.

Uma boa frase

“Há frases que são como o algodão do anúncio, não enganam. Na entrevista, ontem publicada pelo DN, Nuno Crato afirma a certa altura, “O país não pode ter só doutores”. A velha e serôdia, mas falsa, conversa do “isto é um país de doutores” revisitada, em suma. Se da boca de alguém minimamente informado sobre o nível de qualificações e escolaridade dos portugueses tal frase já seria um absurdo, da de um ex-ministro da educação raia a afronta.". Maria João Pires,
Geringonça
Mais comentários e ideias: pedro.roloduarte@sapo.pt
Pesquisa
 

Ligações

Antena 1
Central Parque, RTP3
O Hotel Babilónia na Antena 1 (com o João Gobern)
No Biography Channel

Arquivo
Mais comentados
Subscrever
Sexta-feira, 25 de Janeiro de 2013

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. A deste mês já está à venda, e bem, com a capa que aí mostro...)

 

Sim, eu também fui ler “As 50 Sombras de Grey”. São mais de 40 milhões de livros vendidos em todo o mundo, é uma saga que arrasta leitores do primeiro para o segundo volume, e daí para o terceiro, está a ser adaptada ao cinema, e não quis ficar de fora. Em todos os sentidos.

Quis perceber o fenómeno, quis entrar no universo que tem extasiado tantas mulheres, e quis ver até que ponto a vida sexual da minha geração tem sido desinteressante ao ponto de cativar leitores para um livro onde o sexo é quem mais ordena. Ou, numa pergunta: que tipo de sexo, ou de linguagem, ou de fantasia, poderia atrair para estes livros a geração a que pertenço?

Sei bem que são três volumes e o meu interesse morreu no primeiro – mas também sei que não estava sozinho. Mais ou menos ao mesmo tempo, amigas e amigos liam E.L.James, debatiam o livro, e boa parte deles chegava ao mesmo fastio a que cheguei...

... Na verdade, o primeiro volume da saga escrita por E.L. James é uma mistura de novela da Globo com Casa dos Segredos: tem tanto de amor proibido como de voyeur, e tudo radica nos universos onde se movem as personagens - uma pobre no universo de um rico, uma novata nas mãos hábeis de um sabido, uma virgem no mundo do mais ligeiro Sado-masoquismo. Ora, isto é o segredo da telenovela: misturam-se os extremos e dá drama, dá confronto, dá emoção. Logo, dá história.

Mas não dá mais nada. Se realmente quisermos falar de sexo e literatura, ou de erotismo e literatura, mais vale ir aos clássicos, de Henry Miller a Nabokov, passando pela incontornável Anais Nin, todos eles mais ousados e menos óbvios do que os corredores das sombras de Grey – ou então cair no outro lado do colchão e recuperar Catherine Millet, a mulher que descreveu a sua vida, muito vivida, em A Vida Sexual de Catherine M., totalmente escancarada, no melhor e no pior.

Porém, apesar do eventual exagero à volta da trilogia, parece-me que o fenómeno Grey é apenas a ponta do iceberg de algo mais interessante – aquilo que a revista (feminina) de sábado do jornal El Pais abordou recentemente sobre o mote “o novo papel da mulher (no sexo): de objecto passivo a sujeito activo”. Já sabemos como se faz jornalismo neste patamar - a palavra “novo” atrás de qualquer outra ganha dimensão de “dossier de imprensa”: o “novo sexo”, a “nova velhice”, os “novos jovens”, o “novo mundo”. O “novo” é a mais velha palavra que renova as matérias que já ninguém suporta...

Dito isto, lido o dossier do El País, com o sucesso Grey à mistura, e passando pelos estudos que se vão fazendo sobre o pasto para toda a espécie de envolvimentos que plataformas como o Facebook e o Badoo constituem, é indiscutível que o sexo, a nossa vida sexual, voltou a estar em cima da mesa, para debater ou apenas redescobrir. Dizem que os momentos de crise são dados à depressão – mas também dizem que são dados ao excesso, ao “perdido por cem, perdido por mil”. Não deixo de notar o regresso em força do culto da homossexualidade feminina na moda e na publicidade, e o número dos que vem defender que toda a sexualidade é, afinal, bissexual, aumenta de tal maneira que começa a ser difícil escapar a esta onda.

Está a começar um novo ano, dizem que vai ser o pior das últimas décadas. Apesar de tudo, mantenho uma réstia de esperança e luz: se for o ano de todos os pecados, se for o ano que prolongue para norte do Equador a velha frase de Chico Buarque – ele cantava “Não existe pecado do lado de baixo do equador/ Vamos fazer um pecado rasgado, suado, a todo vapor”... -, podemos pelo menos dar largas à fantasia, à imaginação, e não cair na asneira de dar razão ao actor Kevin Costner, que sobre o que é realmente importante na vida, disse: “a água fresca é tudo”. Não, não é. E não são precisas sombras para ter a certeza...


publicado por PRD às 15:15
link | comentar | favorito
|

3 comentários:
Pois que gostei da sua opinião ainda por cima porque partilho dela. E sim, espero e acredito que seja mais o ano de todos os pecados ( dos bons, que os há), do que o pior ano da última década...não sou nem pessimista, nem fatalista sou mais de me adaptar e tirar partido das coisas. Já conhece a Mallu Magalhães? Velha e louca - vai gostar :) Bom fim de semana. Paula.

deixado em 25/1/13 às 17:50
responder a comentário

Obrigado pela partilha. Numa altura em que saem tantos livros, escolher é fundamental e a sua opinião determinante.


A razão para vender tanto deve ser a mesma das audiências da casa dos segredos, que, pelo menos para mim, ainda não está completamente esclarecida.

Hoje li algures que o difícil não é escrever um livro, é fazer com que o leiam!

Mas depois acontece isto: o mais vendido é Grey...

deixado em 25/1/13 às 20:02
responder a comentário

Belinda Cardoso

Embora a minha curiosidade leve-me por vezes a "transgredir" ou a "cometer excessos", o livro citado não me despertou qualquer tipo de curiosidade, pura e simplesmente por ter critérios muito próprios.
A razão do sucesso deste livro, tal como outras "fitas", a meu ver, deve-se simplesmente ao facto de não sabermos olhar para nós próprios, não sabermos soltar os nossos afectos, não partilharmos. E é talvez através da leitura de "Sombras de Grey" que muitos se encontram, pois pior que a solidão é a solidão a dois.
O ser humano é complexo,uma verdadeira "caixa de Pandora"!!

deixado em 26/1/13 às 00:24
responder a comentário

Comentar post

Post-it


Ler mais