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Pedro Rolo Duarte

09
Mar13

Sobre sábado

Uma amiga que conheci nos primeiros anos de Liceu, com quem partilhei vidas de toda a espécie - pessoais, profissionais, emocionais -, com quem me zanguei seriamente, e mais recentemente me conciliei, mesmo sem nos reconciliarmos, foi quem primeiro me falou de Clarice Lispector. Já a escritora tinha morrido, em 1977. Li vários livros de Lispector (“A Bela e a Fera” e “Perto do Coração Selvagem” foram os que ficaram gravados...), soube da sua vida curta e da morte prematura. Há dias tropecei num diálogo com um jornalista: “Por que escreve?”, pergunta o profissional de O Globo. E ela: “Vou responder-lhe com outra pergunta: por que você bebe água?". O jornalista não se intimida: “Por que bebo água? Porque tenho sede". Clarice, brutal: “Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva."

Assim foi até Dezembro de 1977.

Ontem esbarrei novamente (como acontece, de resto, com frequência), num texto de Clarice Lispector. Neste caso, sobre o sábado. Eis o que partilho com quem passa por aqui. Não sem antes deixar uma notável citação da escritora: “Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

É isso? Não sei se é isso. Mas sábado, para ela, é isto, e eu quero que aqui fique:

“Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.

No sábado é que as formigas subiam pela pedra.

Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.

De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.

Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?

No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.

Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.

Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã. 

Domingo de manhã também é a rosa da semana. 

Não é propriamente rosa que eu quero dizer”.

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