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Pedro Rolo Duarte

02
Mar08

Memória

Noitada de arrumações. Tentar aliviar a carga de papel impresso que me cerca. Livros e revistas e jornais e memórias. Como sempre, acabo a noite tendo concretizado 10% do que me propunha – mas por outro lado, deliciado a ver coisas antigas...
A revista Donas de Casa, onde a minha mãe foi chefe de redacção.
Vejo a edição primeira de 1969 (custava 5 escudos), uma escolha das seis mulheres que mais se destacaram há exactamente 40 anos. Ali está Amália Rodrigues.

(o ano do fado “Dar de Beber à Dor”: “E das saudades o gosto/ Que vou procurar esquecer numas ginjinhas / Pois dar de beber à dor é o melhor/ Ja dizia a Mariquinhas”, uma letra que hoje seria evidentemente vetada pelo politicamente correcto, pelo Ministério da Saúde, e quem sabe mesmo se a ASAE não teria uma palavrinha a dizer sobre isso...)

Ali estão também Laura Alves, Delfina Cruz, Maria Leonor, Laura Soveral, e a entretanto esquecida “Mulher Ideal de 1968”, Sónia Coutinho.
Passo as páginas da revista e paro num dossier: “Grande Plano Para a Criança”. Um trabalho sobre os perigos a que estão expostas as crianças em casa, dos fogões às fichas eléctricas. Observo a página, e recuo mesmo no tempo. O miúdo que, nesta foto, morde nervosamente o lábio inferior enquanto olha para o perigo iminente, sou eu. Fazia de “figurante” quando eram precisas fotografias para ilustrar artigos. A minha irmã também. O meu irmão António, mais velho, já era voz activa: o que é ser adolescente nos anos 60, e lá está ele com o seu sorriso franco a responder...

Olho a fotografia e reconheço a minha infância doce. A menina que ao meu lado “brinca” com a ficha eléctrica é a espanhola Paloma, à frente de quem me derretia, apesar de ser demasiado espevitada para a minha timidez. Amava-a e tinha medo dela. Lembro-me tão bem.
Lembro-me desse tempo em que viver era a coisa mais fácil do mundo. Mais fácil, porém muito misteriosa. A vida era infinita e o mundo era gigantesco. O meu quarto era do tamanho de um país e eu perder-me-ia no Campo Grande para sempre.
É irresistível voltar a olhar este passado e deixar de me perder longamente dentro dele.
Amanhã continuo as arrumações...

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Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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