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Pedro Rolo Duarte

07
Abr13

(Sobre Luís Andrade) Uma pequena história

 

Em 1995, a dupla chamada na RTP de “Joaquins” (Vieira e Furtado), então directores de programas e informação, convidaram-me para coordenar e apresentar um programa chamado “Canal Aberto”, que pretendia, nas palavras deles, ser uma espécie de “Fórum TSF” televisivo. Os temas do dia, em directo, convidados e espectadores por telefone em interacção, uma plataforma de opinião. Para dar força ao dinamismo pretendido, aquela direcção lembrou-se de usar o espaço então libertado pela Casa do Pessoal da RTP, no rés-do-chão do edifício da 5 de Outubro, e abrir o cenário para a rua, à semelhança do que era moda nos programas da manhã da televisão norte-americana. O Mundo ali fora, à mão de semear...

O programa durou pouco tempo mas foi muito gratificante: valeu-me duas nomeações para os Globos de Ouro, abriu caminho a que voltasse à televisão com regularidade, e foi uma primeira experiência de um tipo de programa hoje curricular em todos os canais de informação.

É verdade que o Canal Aberto ficou mais conhecido pelo cenário, e pelas pessoas que apareciam a dizer adeus ou mostrar os filhos na “montra” da 5 de Outubro, do que pelos temas que nós seriamente debatíamos lá dentro. Mas isso é outra história.

Para aqui interessa que, a poucos dias da estreia, o muito baixo pé direito do espaço (que não tinha sido obviamente desenhado para estúdio de televisão), criava sérios problemas de som e imagem, reflexos dos vidros virados para a rua, e todo um sem número de dramas técnicos que ameaçavam inviabilizar o começo na data entretanto anunciada. Andava tudo num virote, mas pouco se avançava: o calor das luzes arrasava a presença no cenário, o som era medíocre, as câmaras não conseguiam flexibilidade no espaço, enfim, todos os dias eu chegava à RTP para mais um ensaio, e os problemas acumulavam-se, aparentemente sem solução.

Dois ou três dias antes da estreia, apareceu no plateau o Luís Andrade (que eu conhecera num divertidíssimo júri do Festival da Canção, outra história para outro dia...). Nem sei qual era, naquele momento, o cargo que ocupava na RTP, mas era respeitado e ouvido como se fosse (e era...) um senador. Com o nervosismo que o caracterizava, e aquela energia e stress contagiantes – a que se somava um entusiasmo que conseguia, no limite, fazer-nos ver a cores um televisor a preto e branco... – parou a olhar para o espaço e começou a disparar perguntas. Cada pergunta era em si um problema – e para todas ele tinha na volta uma solução. Rigorosamente assim. Está calor? “Então e aquele tubo que eu vejo ali não se pode deslocar e arrefecer o espaço onde eles trabalham?”. Uma sombra? “Desliguem aquele projector”. As câmaras não deslizam? “Ponham um tapete xpto”. Ninguém ficou sem resposta.

No fim da sessão, passou por mim e disse: “Oh Pedro, se amanhã achar que não vai estrear daqui a dois dias, telefone-me! Eu venho cá abaixo e ponho o programa no ar”.

Não foi preciso. Entre as soluções do Luís e o entusiasmo para cumprir o objectivo que ali deixou, em dois dias o impossível tornou-se possível.

Foi isto que me ensinou Luís Andrade. Quando se quer muito, tudo se faz. Quando há paixão, não há impossíveis.

Que bom ser esta a memória que guardo dele. É de pessoas assim que Portugal precisa tanto. Precisa tudo.

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