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Pedro Rolo Duarte

24
Abr13

Slides perdidos

Quando era miúdo, havia fotografias e slides (já adulto, também era assim - mas dá-me jeito fixar o tempo naqueles anos longínquos...). Os slides eram a cores, o que os distinguia do preto e branco das fotografias (e máquinas) caseiras, mas tinham um enorme inconveniente: nas fotos havia um negativo original que permitia cópias e algum tratamento na câmara escura, já nos “diapositivos” (a palavra em português), dado que eram o “positivo” de um “negativo” único, não havia segunda oportunidade nem “ajustes” possíveis. Isto é: enquanto existiam, eram exactamente a fotografia “tirada” – e quando se riscavam ou perdiam, eram um caso perdido para sempre.

Todos os anos, entre o 25 de Abril e o Dia do Trabalhador, lembro-me de um slide perdido. Sou eu, com 9 anos, no primeiro 1º de Maio livre, em 1974. Nas traseiras do (actual) Estádio Primeiro de Maio, o fotógrafo Eduardo Gageiro desafiou os meus pais a porem-me em cima de uma chaimite cheia de cravos e soldados felizes, para a fotografia de um tempo cuja mudança viviam e sentiam. Os meus pais alinharam, e eu lembro-me de estar em cima daquele carro esquisito.

Era um slide num caixilho de cartão branco, que me acompanhou por muitos anos - juntamente com outro slide, que o meu amigo Gonçalo Rosa da Silva tirou, comigo encostado ao que restava do muro de Berlim, algures em 1990.

Ambos me escaparam das mãos em alguma das mil mudanças de casa que pontuaram os últimos 25 anos.

Estão perdidos, como esse tempo em que tudo parecia fácil, óbvio, e bom.

Talvez esse facto possa constituir uma metáfora do que me rodeia. Um aviso. Ou um conselho. Os “haveres” são sempre o que sobra do que se perdeu.

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