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Pedro Rolo Duarte

01
Mai13

Um poeta numa rua de Lisboa

 

Passava ontem pela Rua Marquês de Sá da Bandeira, ali junto à Gulbenkian, e depois de ver escrito numa parede “Queremos tudo!”, e sorrir com esse pedido singelo de um anónimo pintor de paredes, tropecei neste bocado de chão – ou melhor, neste bocado de excepção ao empedrado do passeio.

Não escondo a minha ignorância, nem a minha curiosidade. Quando cheguei a casa fui googlar o nome de Herman de Coninck, para perceber o mistério daquela placa gravada no chão. O mistério, claro, é o da morte de um poeta numa rua de Lisboa. A caminho de um encontr de poetas. No blog Poesia & Lda, João Luís Barreto Guimarães escreve sobre ele: “um dos mais importantes flamengos do pós-guerra, foi mais um desses poetas europeus – como Egito Gonçalves, – que tanto incomodaram os puristas por possuir uma notável capacidade de apreender de um quotidiano aparentemente estéril e banal, instantes sagazmente luminosos, através do uso de uma linguagem com notável capacidade discursiva, onde o humor não é o menor dos seus recursos. Foi um poeta do seu tempo: a fruição do leitor na leitura dos seus poemas resulta, suponho, da identificação com imagens suas contemporâneas que, com aparente objectividade, se dão a ler no poema”.

E deixou-nos um poema de Herman de Coninck, o poeta no chão de uma rua de Lisboa que mudou o curso do meu dia de ontem. E me deixou a pensar no “Conto de Fadas”: “Era uma vez um homem / Que era sempre justo”.


Rapariga

Tu própria, que podes ter a noção e ao mesmo tempo
o atrevimento de simplesmente expor
de vez em quando uma opinião
ou um seio: quando começa isso,

e no fundo quando acaba? As mulheres
são feitas de raparigas, aos quarenta
ainda deitam a língua de fora como aos quinze,
ficam cada vez mais jovens,

não sabem não seduzir. Como a poesia:
um gato que prudentemente caminha sobre as teclas
de um piano e olha para trás:
ouviste? viste-me?

Ah, o ar jovem das raparigas de quarenta,
como umas vezes querem, e outras não,
mas afinal sempre, se repararmos bem.
Onde estão os bons velhos tempos? Estão aqui, esses tempos.

 

Herman de Coninck

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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