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Pedro Rolo Duarte

24
Mai13

Sobre o preconceito

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. Mais uma à venda desde hoje...)

 

Esta frase já deve ter sido escrita por alguém, provavelmente com maior propriedade, mas só agora a senti na pele: o preconceito é o pai da cegueira. Podia ser o pai da burrice, mas isso implicava um raciocínio mais profundo, e para o caso interessa-me o básico: a cegueira, não no sentido de quem está condenado, mas no sentido de quem não quer ver, é muitas vezes filha do preconceito, ou do complexo.

Foi o que senti quando li uma entrevista recente do estilista Karl Lagerfeld à revista Veja. Enquadremos o tema: a primeira vez que ouvi falar de Lagerfeld foi há 30 anos. Eu tinha 18, ligava pouco ou nada a moda, e vi a fotografia do senhor nos jornais porque lhe coubera em sorte recuperar a marca Chanel, em queda no universo da moda.

A imagem de Karl Lagerfeld, as suas excentricidades, os óculos escuros a esconder o olhar, e uma certa sobranceria na atitude, levaram-me a embirrar com a figura. Desde o primeiro minuto. Não me foi indiferente a crescente influência que os anos 90 lhe trouxeram com a recuperação da Chanel, a sua marca própria, o trabalho na Fendi, mas nem por isso cedi à tentação de perder tempo com a existência de um homem mais popular pelas suas dietas e leques do que por um qualquer momento de mudança no Mundo.

Até ao mês passado, ou seja, até ler aquela entrevista, que assinalava uma passagem breve do estilista pelo Brasil. Subitamente, o vaidosão arrogante cedeu lugar ao trabalhador inteligente; o tonto dos óculos escuros deu espaço ao atento observador; e até o exibicionista primário era afinal um homem discreto.

Comecemos pelo óbvio: um qualquer Karl Lagerfeld não chega ao Brasil dizendo que do país conhece quase nada, a não ser a recordação de um casamento a que foi há 50 anos. Mas ele não apenas assume a sua ignorância, como revela um outro conhecimento: “adoro a sonoridade do português que vocês falam, porque tem uma leveza que não existe no original europeu”. E para que não restem dúvidas de que sabe do que fala: “Aliás, um dos meus autores favoritos é português, Eça de Queiroz”.

Daqui para a frente, a entrevista de Lagerfeld é um monumento de revelações. Quando um “colega” lhe fala de arte na moda, ele pergunta “Como? Deixou de fazer vestidos?”, e com isso explica que moda é negócio, trabalho, e obra de artesão. Quando lhe perguntam pelas memórias (tem 79 anos), ele recusa escrevê-las: “por isso, dou entrevistas”.

Ao fino sentido de humor, Karl Lagerfeld soma sabedoria. Veste sempre preto “porque é mais fácil”. Usa luvas “da mesma forma que as pessoas usam sapatos, para não sujar as mãos e porque é chique”. E a modernidade resulta simplesmente de “ser curioso” e “manter-se informado”. Com a vida, com jornais, com revistas: “Meu Google sou eu mesmo”.

Aqui chegado, recolho as espadas, os argumentos, e acima de tudo o preconceito: aquele homem de imagem andrajosa, que incomoda com a atitude e importuna com a pose, tem por trás daquela fachada ideias, princípios, humor e sabedoria. Uma entrevista bastou para deitar por terra tudo o que, de forma gratuita e ligeira, pensava sobre Karl Lagerfeld.

Na verdade, não é muito importante ter mudado de ideias sobre um estilista que aparece nas revistas – mas talvez tenha alguma relevância pensar que, aplicado ao mundo de cada um de nós, o meu engano seja uma gota de água nos enganos em que permanentemente embarcamos só porque um qualquer preconceito – a roupa, o olhar, a pose, a imagem – nos faz julgar erradamente. Estupidamente.

Se conhecesse Karl Lagerfeld pessoalmente, pedia-lhe desculpa. Como não conheço, aprendo uma lição e faço dela uma crónica. Já não é mau.

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