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Pedro Rolo Duarte

07
Jun13

Pai, filho & terroristas

(A minha amiga Teresa do Vale Magalhães pediu-me há tempos uma crónica para a revista da ANA (Aeroportos e Navegação Aérea, bem entendido...). Condição única - além dos caracteres bem contados... -, o texto teria que envolver aeroportos. Lembrei-me desta história. Lá saiu na revista, e sai agora aqui...)

 

Tinha passado um mês sobre o 11 de Setembro de 2001. As notícias não deixavam dúvidas: se viajar, prepare-se para o suplício das medidas de segurança, a tortura das filas nas zonas de controlo, e um ambiente muito tenso nos aeroportos da Europa e EUA. Uma verdadeira prova de esforço.

E foi exactamente por causa deste ambiente, e de saber que o Aeroporto da Portela estava em alerta máximo, que propus ao meu filho, então com cinco anos, uma viagem “de sonho”: ir ter com amigos ao Algarve, mas... de avião!

Assim foi. Numa sexta-feira apanhei-o na escola e seguimos directos para o aeroporto. No táxi, falámos de terroristas, armas, dos perigos que a viagem encerrava, e de como prometia um momento excitante. Certificámo-nos de que as bagagens não incluíam nada que pudesse contrariar as autoridades...

Quando chegámos ao aeroporto, confirmou-se a expectativa - havia militares e policias armados até aos dentes, um ambiente tenso, e recomendações por todos os lados. O meu filho olhava para tudo aquilo entre o espanto e o medo. Estávamos, portanto, em “plena” aventura. Depois do check-in, o controlo das bagagens de mão. A pergunta clássica:

- Trazem algum objecto da lista proibida?

- Não, senhor, respondeu o António Maria, hirto e sério.

Volvidos alguns segundos, um dos funcionários pede-nos para sairmos da fila com as nossas coisas, em rigor a mochila da escola e um saco de jornais. Com ar sério e grave, voltou a perguntar:

- Têm a certeza de que não transportam nenhum objecto proibido?

E eu, a rir, encolhendo os ombros:

- Claro que não.

E o funcionário:

- Temo que sim...

Aí comecei a irritar-me:

- Oiça, se é uma brincadeira, veja lá, não quero assustar o miúdo.

O miúdo já estava assustado. O funcionário apontou para a mochila:

- Pode abrir e ver o que tem lá dentro?

Abri. Comecei a tirar cadernos. E o estojo das aulas de desenho. E dentro dele... Bom, dentro dele uma tesoura infantil amarela, de plástico, para cortar papel, e com bicos redondos...

- Lamento, disse o funcionário, mas vamos confiscar o objecto. Agora já podem seguir...

Foi um momento sublime. Pai e filho sob a ameaça de serem considerados perigosos terroristas por conta de uma tesoura amarela de plástico com bicos redondos! O objectivo da viagem estava concretizado: nunca mais o meu filho viveu uma aventura destas.

(Neste momento ele anda pela Austrália, saltita entre aeroportos para chegar a Lisboa, mas não consta que seja retido. Porque ele agora deixa as tesouras de plástico em casa...)

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Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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