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Pedro Rolo Duarte

21
Jun13

Porno-crónica

(Crónica originalmente publicada na revista Lux Woman. Hoje está uma fresquinha à venda, com uma lindíssima Maria João Bastos na capa...)

 

“Ofereci à minha mulher, no seu aniversário, um tablet com acesso à internet. Passado pouco tempo ela começou a falar-me de ousadias sexuais que queria experimentar, e eu estranhei, porque nem sequer percebia do que ela falava, e conheço muito do que se faz por aí. Descobri que ela andava a ver pornografia na net e queria concretizar certas coisas que tinha visto. Estará doente?”.

Estou a citar de cor - mas era esta, no essencial, a pergunta que li, há dias, num desses consultórios sexuais que publicam alguns jornais e revistas. A sexóloga consultada procurou, na resposta, tranquilizar o marido exaltado (e assustado...), falando da necessidade de apimentar a vida sexual dos casais, e que daí não vinha mal ao mundo, desde que fosse de acordo com a sensibilidade de ambos.

Não sou sexólogo, nem pretendo especular sobre os limites da sexualidade, mas sou homem para arriscar uma ideia, sem qualquer base cientifica ou estatística, sem maior sustentação do que o empírico palpite de treinador de bancada: a pornografia livre na internet fez mais pela intimidade dos casais do que dez anos de revolução sexual na década de 60 do século passado, e trinta anos a ressacar dessa mesma revolução, e a reinventar os tempos que se lhe seguiram...

O que os estudos hoje nos dizem é que a uma esmagadora maioria de internautas vê pornografia, procura pornografia, usa a internet para ter acesso a pornografia. O sexo é, claramente, o tema que maior interesse desperta quando se estuda a rede de todas as redes, e está para a Internet como os reality-shows estão para a televisão: ninguém diz que vê, toda a gente vê. Estes factos dariam que pensar aos académicos e profissionais desta área, fossem sociólogos ou médicos. Se aquele “item” mexe com tanta gente, talvez devêssemos deixar de o considerar limbo da internet, submundo da realidade, não-assunto da vida real.

Porém, deixamos o tema no banho-maria do que pode criar problemas se a água começa a ferver. Os nosso tabus, a educação que recebemos, e os clássicos pruridos sobre estas matérias, levam-nos a um estado de negação permanente. Não somos capazes de confessar – nem às paredes... – que foi num “zapping” por um site ousadíssimo que descobrimos aquela posição, aquela alternativa, aquele fetiche que repentinamente nos diz tanto. Mais do que as sombras do tal Grey (de que falei aqui, há meses, para dizer que pôr “novo” atrás da palavra “sexo” não faz do sexo algo de novo...), é ali, no click de um site, numa fotografia, num vídeo, que nos encontramos com o espelho do que nem imaginávamos que podíamos ver reflectido. Essa janela aberta é boa e saudável – e, uma vez mais, sem quaisquer comprovativos científicos, arrisco escrever que contribui para diminuir os crimes sexuais, as perversões, as parafilias.

Este é um elogio da pornografia? Com certeza que sim. Porque talvez quisesse apenas chegar a um ponto: quanto mais escondemos o que nos convoca, o que nos abala, o que verdadeiramente mexe connosco, mais nos afastamos de uma qualquer ideia de paz e felicidade. Nada nos apazigua mais do que a mente liberta e livre – e não há forma de lá chegarmos sem que nos libertemos dos fantasmas que dançam à nossa volta.

Voltando ao começo, eu responderia ao leitor daquele consultório: “A sua mulher não está doente, está de boa saúde! Já você, caro leitor, se continuar a achar que fetiche e fantasia, desordem e libertação, podem ser doenças da outra metade do casal, vai acabar duplamente infeliz: sem o prazer... e sem a sua mulher”.

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