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Pedro Rolo Duarte

08
Mar08

Um adeus (também) português

Esperei dez dias para confirmar que as imagens da televisão não mentiam. Passaram. E aí está ele, Paulo Portas, Presidente do Partido Popular. Só me apetece acenar-lhe com um lenço branco, num qualquer cais, e ver o seu «Titanic» avançar pelo mar dentro. Adeus, Paulo...
No cais onde me encontro estão todos aqueles que, algum dia, trabalharam com ele em algum lugar. Aqueles que acreditaram que a sua paixão pela política se esgotava no domínio dos ideais e no puro jogo de bastidores. Ingénuo, nunca acreditei que Paulo Portas deixasse de ser jornalista. Achei que a incursão no Partido Popular era um «fait-divers» de que se arrependeria tão depressa quanto Vasco Pulido Valente se arrependeu de ter ido para a Assembleia da Republica. No limite, pareceu-me uma espécie de pagamento de promessa ou, mais rigorosamente, um daqueles momentos cinematográficos em que o realizador salta para o «plateau» e faz um pequeno papel. Paulo é um cinéfilo inveterado e imaginei que, como Hitchcock, quisesse entrar em cena num dado momento da acção. Afinal, era ele que realizava o filme do Partido Popular, tinha sido ele a criar o chuveiro para o assassinato em «Psicho».

A minha ingenuidade não tem cura. A verdade é que, revendo agora o filme, parece óbvio que todo o guião estava escrito para que, a um terço do final, o realizador tomasse o lugar do protagonista. E aqui estou eu, de lenço branco na mão, no cais de onde sai o «Titanic» que Paulo agora comanda.

Desapareceu já do horizonte o Paulo Portas que eu conheci. Um tipo pouco mais velho do eu, muito mais inquieto, com uma intuição jornalística que deixava à toa o mais credenciado profissional. Nem sequer era o meu caso, que aterrava em «O Independente» saído do «berço» do jornalismo de espectáculos e rendido ao potencial da televisão. O Paulo Portas que conheci, nessa altura, constituía o director de jornal perfeito. Não largava a sua presa, fosse uma história política, social, um drama, uma entrevista com Amália. Amava o jornal como se fosse a única coisa importante na vida. Vivia-o intensamente, diariamente, do seu gabinete à velha sala de montagem em Algés, passando pelas caves do edifício do «Correio da Manhã», ali perto do bar «Snob», onde Jorge Colombo passava horas a mudar as páginas que tinha desenhado na véspera. Esse Paulo que eu encontrava nas instalações da Rua Actor Taborda às horas mais disparatadas dos dias mais improváveis podia protagonizar a cena clássica do grito «Parem as máquinas» — porque o que ele queria mesmo, todas as semanas, era mais cinco minutos para rematar uma manchete ou retocar um artigo, fazer um derradeiro telefonema antes do jornal seguir para a rotativa.

«O Independente» de há dez anos era constituído por um grupo de vinte pessoas que queria fazer um jornal novo onde pudesse praticar o jornalismo que, nos outros jornais, era efectivamente impossível, porque demasiado preso a dependências, espartilhos, preconceitos e «tendências». Só esse espírito poderia reunir, num mesmo espaço, pessoas tão diferentes, ideias de jornalismo tão díspares, e um romantismo tão exacerbado. Todos desejávamos que «O Independente» tivesse sucesso – até porque, na época, era o jornal mais odiado por todos os profissionais que não trabalhavam nele... —, mas a ambição de vencer o semanário número um do mercado só poderia vir da cabeça de um homem como aquele.

Foi um objectivo que ficou por cumprir. E foi a primeira vez que admiti que a pose definitiva de Paulo Portas, quando defendia os seus pontos de vistas ou quando, com aquela inabalável firmeza, distinguia esquerda de direita, poderia constituir apenas um «ponto de partida», jamais um dogma irrefutável. Ainda assim, admiti que Paulo estaria na política de passagem. Convicto, mas de passagem.
O filme estava todo ao contrário.

E agora os analistas deixaram de olhar Paulo Portas como um profissional em «comissão de serviço», um franco-atirador, um «infiltrado» que se diverte a clonar ideias suas na cabeça dos outros. Nada disso: agora, Paulo Portas é um alvo em movimento. Os analistas atiraram-se a ele, finalmente, libertos dessa dúvida metódica sobre o seu caminho. Como o próprio Paulo bem sabe, nestes momentos não há perdões: vieram as contradições, os volte-faces, as juras eternas que se quebraram em menos de um mês. Desenterraram-se os artigos, os discursos, o percurso. Paulo Portas deixou, de um dia para o outro, de ser um «enfant terrible» para passar a ser um adulto igual aos outros num partido igual aos outros no mundo da política igual a sempre.
O cais de onde vejo desaparecer ao fundo o «Titanic» vai, pouco a pouco, ficando deserto.

Os lenços foram guardados, as conversas de circunstância esquecidas. Do Paulo que conhecemos resta a memória. A sua maior vantagem – a diferença entre irmãos – desapareceu. Agora, ele é igual entre iguais. Mais um nome para as colunas de «sobe e desce», mais uma peça de xadrez num jogo pouco respeitado. Não voltará a ter o poder que uma página de jornal lhe dava. No limite, usará o telefone para tentar a sua sorte entre todos os títulos de todas as primeiras páginas. Espero que não se esqueça dos icebergs e da dificuldade em navegar quando o nevoeiro desce sobre o mar. Boa viagem, é o que lhe desejo.

Ao sábado, reedições. Publiquei este texto em 1998, no Diário da Notícias, alguns dias depois do Congresso de Braga que Portas ganhou a Maria José Nogueira Pinto.

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