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Pedro Rolo Duarte

04
Set13

Saber tocar piano, evidentemente.

(A minha amiga Anabela Mota Ribeiro recordou-me no seu blog que no Verão de 2010 lhe respondi a uma reinvenção do Questionário de Proust. Ficou assim e saiu no Jornal de Negócios)

 

Proust disse que uma necessidade de ser amado e cuidado era a sua característica mais marcante. Mais do que ser admirado. Qual é a sua?

A necessidade de existir quem eu ame. E me ame. Para que quem me ame (e eu ame) possa apreciar o que sou, e dizer-me como fazer para ser melhor.

 

Qual é a qualidade que mais aprecia num homem? Proust falou de “charme feminino”...

A forma inteligente e oportuna de dizer o palavrão certo no momento ideal.

 

E numa mulher? Ele mencionou “franqueza na amizade” – golpe baixo para as mulheres ou sagaz comentário?

A aparente futilidade de uma unha muito bem pintada. Só comparável a um sentido de humor irrepreensível.

 

Ternura, desde que acompanhada de um charme físico..., era o valor mais precioso nas amizades de Proust. E nas suas?

Ternura, acompanhada de Chico Buarque: “Oiça um bom conselho...”

 

Vontade fraca e incapacidade para entender, foi a resposta que deu quando lhe perguntaram qual era o seu principal defeito. Partilha destes defeitos? E que outros pode apontar?

Excesso de sinceridade, uma terrível incapacidade de disfarçar a impaciência.

 

Qual é a sua ocupação favorita? Amar, disse ele...

Enquanto sinto que amo, passar as folhas de livros, revistas, jornais, e olhar o meu filho enquanto ele passa as folhas de livros, revistas e jornais. Além disso, mergulhar no mar.

 

Qual é o seu sonho de felicidade? A resposta de Proust é esquiva: não fala de molhar madalenas no chá e diz que não tem coragem de o revelar... Mas que não é grandioso e que se estraga se for posto em palavras. O que é que compõe o seu quadro de felicidade?

Um hotel rural, um restaurante, a minha mulher da minha vida, o meu filho e a filha que me falta. Tudo no mesmo lugar, com Sol e mar muito perto. Ah, claro, e a revista que ninguém ainda quis fazer...

 

O que é que na sua cabeça seria a maior das desgraças? Proust respondeu, aos 20 anos: “Nunca ter conhecido a minha mãe e a minha avó”. Mas aos 13 respondeu apenas quando lhe perguntaram pela maior dor: “Ser separado da mamã”.

A maior das desgraças é um verbo: perder. Para quem vive sem sentir, perder qualquer coisa. Para quem vive a sentir, perder pessoas. Perder.

 

Quando lhe perguntaram o que é que gostaria de ser, respondeu: “Eu mesmo”, aos 20, e Plínio, o Novo, aos 13. As suas respostas seria diferentes? Quem gostaria de ter sido aos 13 anos? E agora?

Aos 13, jornalista. Aos 43, gostaria que nunca aos 13 o quisesse ter sido.

 

Proust gostaria de viver num país onde a ternura e os sentimentos fossem sempre correspondidos. O país onde gostaria de viver existe deveras? Onde fica?

O meu país fica no meu coração, do meu filho e daqueles que amo. Quando estes corações se juntarem, há um novo país na Europa. Não pertencerá à União, presumo...

 

Quais são os seus escritores preferidos? No momento em que respondeu, Proust lia com especial prazer Anatole France e Pierre Loti.

Pessoa, Vergílio Ferreira, O’Rourke, Paul Auster, Patrícia Highsmith, e o que há de escritores em Miguel Esteves Cardoso, Vasco Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares.

 

E os poetas? Ele mencionou dois, e um deles faz parte das listas eternas: Baudelaire.

Eu diria Pessoa, e nalguns dias O’Neill. Noutros Herberto Hélder. Também ficava com Ruy Belo.

 

Qual é o seu herói de ficção preferido? Aos 13 anos, Proust falou de Sócrates e Maomé como figuras históricas de eleição... E aos 20, referindo-se às mulheres, elegeu Cleópatra.

Claramente, Tintin. Nos dias mais solarengos, Óbelix e o seu cão Ideafix.

 

Quem é o seu compositor preferido? Aos 13 anos, escreveu Mozart, aos 20 Beethoven, Wagner, Schumann. Mas Proust não podia conhecer Tom Jobim ou Cole Porter...

Aos 20, Sting. Aos 30, Caetano Veloso. Aos 40, David Sylvian. Aos 50, estou certo de que será Bach.

 

Proust não foi contemporâneo de Rothko. E escolheu Da Vinci e Rembrandt como pintores favoritos.

Por mim, Miró e Picasso. Sou ignorante.

 

Quem são os seus heróis da vida real? Ele apontou dois professores.

O meu pai. Vergílio Ferreira. Carlos Cruz. A professora Maria Teresa Torrado. Um homem comum: Miguel Esteves Cardoso. Dois políticos corajosos: Soares e Cunhal. Quis limitar a escolha aos nacionais, se fosse agora internacionalizar...

 

“Das minhas piores qualidades”, respondeu o escritor da “Recherche” quando lhe perguntaram do que gostava menos. E no seu caso?

Da mentira e da corrupção (sejam elas práticas ou apenas ensaiadas).

 

Que talento natural gostaria de ter? As respostas de Proust são óptimas: “Força de vontade e charme irresistível”!

Saber tocar piano, evidentemente.

 

Como gostaria de morrer? “Um homem melhor do que sou, e mais amado”.

Depressa e bem, apesar do ditado dizer que “não há quem”.

 

Qual é o seu actual estado de espírito? “Aborrecido. Por ter que pensar acerca de mim mesmo para responder a este questionário”. Pensar em quem é traz-lhe aborrecimento?

O meu estado é mais de alma do que de espírito, mais de pensar do que fazer, ainda que a inquietação me obrigue a fazer mais do que pensar. Em suma: estou na mesma.

 

Proust era condescendente em relação às faltas que conseguia compreender. Quais são aquelas que irreleva?

Impaciência, e duas faltas que redundam em pecados: gula e luxúria.

 

Por fim, preferiu não responder qual era o seu lema, temendo que isso lhe trouxesse má sorte... É supersticioso como Proust? O que é que o faz correr?

Infelizmente, alimento dois lemas há uma porrada de anos. Um: água e sabão lavam tudo. Outro: a seguir virá melhor.

 

 

 

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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