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Pedro Rolo Duarte

26
Set13

Indigências & cidadania

 

Quando o Liceu de Camões fez cem anos, eu voltei à Praça José Fontana e, apesar de Cavaco Silva, disse “presente!” ao edifício que tanto me diz. Cavaco, há que reconhecer, não foi muito bem recebido na escola, e o estudante encarregue do discurso (em nome dos alunos) tratou de sublinhar tal facto. Para alguns terá sido constrangedor. Para mim, admito, normalizou a cerimónia e lembrou-me os tempos em que frequentei aqueles pátios e a maioria das salas de aula, descobri a politica, o amor, e a rebeldia…

De regresso ao meu liceu, fotografei os azulejos (de que só me lembrei quando os vi…), os pátios, e a porta de uma das minhas salas de aula (a que fica hoje aqui). Claro que o Camões me pareceu mais pequeno do que a minha memória definiu – mas há anos que me confronto com essa evidência…

Agora, há poucos dias, fui desafiado para alinhar na “Gala de solidariedade e cultura: Camões, a nossa escola”. No Coliseu de Lisboa, dia 12 de Novembro. Dizem os organizadores: “Este será um momento de crucial importância para lançarmos um imperioso alerta a todos os agentes sociais e instituições de Estado para a necessidade urgente de obras de recuperação neste edifício. (…) O objetivo central – que se prende com a nossa vontade de união e festa – é tentar tudo para conseguirmos, em conjunto, reparar uma grande injustiça: o nosso querido e histórico liceu está degradado e incapaz de proporcionar aos seus alunos as condições para a concretização do aproveitamento académico de excelência que todos desejamos: o ginásio –  histórico! – em risco de ruína; os laboratórios carenciados e em que as experiências não se realizam sem risco; os telhados e paredes, onde buscamos proteção e abrigo, cheios de infiltrações, etc. E isto tudo num edifício classificado e de beleza ímpar. Um dos primeiros lyceus da capital, ínclita casa de tantos ilustres da nossa história. É necessário pôr cobro a esta gritante injustiça. A Escola Secundária de Camões foi vítima das “circunstâncias da crise” – nas vésperas de começar o seu plano de recuperação no âmbito da Parque Escolar, uma crise cega, que não distingue pessoas ou instituições pelo seu mérito ou demérito, travou a planeada recuperação desta Escola. Confiamos na sociedade civil para reparar as injustiças que o poder político não pode ou não quer reparar. O nome das entidades e empresas que vierem a associar-se a esta causa ficará para sempre ligado aos corações de todos os que frequentaram e virão a frequentar Escola Secundária de Camões”.

Por amor ao meu passado, alinho e estou com os organizadores. Mas nem por isso fico menos triste, indignado e desalentado por viver num país onde, apesar do aspirador de impostos em que o Estado se tornou, termos de ser nós, os comuns mortais, com o nosso dinheiro ou a nossa boa-vontade, a substituir esse mesmo estado em coisas tão básicas como a recuperação de uma escola publica.

Isto, claro, ao mesmo tempo que indigentes de toda a espécie persistem nos seus lugares públicos, nas reformas que fazem manchetes dos jornais do dia, nas aldrabices das pensões vitalícias, ou apenas na clássica cunha que dá ao filho de alguém o lugar de quem realmente o merecia. E com isso enterra as finanças públicas ao ponto que vamos conhecendo assim, suavemente, entre falências, cortes, ou galas para reunir o dinheiro que alguém injustamente gastou.

Raio de país, este.

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Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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