Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pedro Rolo Duarte

12
Mar08

Histórias da vida normal (na IKEA)

Precisava de uns roupeiros e lá fui à “democrática” IKEA disposto a resolver o assunto, depois de umas horas em casa a medir, imaginar o inimaginável e desenhar esquemas.

Na zona onde se exibem estes objectos anódinos e sem graça estava um rapaz muito simpático, o Valter, que em minutos me esclareceu as duvidas que tinha e ajudou na fase seguinte.
(Toda a gente já sabe, mas pode haver um leitor para quem a IKEA seja misteriosa: ali, naquela gigantesca dupla-gare, o cliente, para pagar pouco e obter qualidade, carrega “caixas planas”, que vai buscar a armários e prateleiras numeradas, onde se encontra a mobília desmontada e, nalguns casos, depois de pagar na caixa, ainda vai a um outro balcão buscar o que pode faltar. Por fim, escolhe: ou carrega para casa e monta sozinho, ou paga para que transportem e montem. Ou seja, quem pode, paga. Já usei as duas variantes, em Portugal e em Espanha, e dei-me bem, apesar da absoluta falta de jeito para a bricolage).

Voltando ao tema. Encaminhei-me para a zona das “caixas planas” com o indispensável carrinho e quando cheguei à secção 55 do corredor 01 percebi que estava metido numa alhada: o meu “carro plano” não aguentava o peso dos primeiros 6 volumes (de um total de 29...) a carregar. Não admira: esses primeiros pacotes pesavam 257 quilos... O total dos volumes dos roupeiros pesava 381 quilos.
Nesse momento dei graças a deus por estar na IKEA: dada a politica socialmente correcta da empresa, as suas preocupações igualitárias, e a sua apregoada relação com o bem da humanidade, certamente os funcionários iriam ajudar o pobre desgraçado a empurrar um número indeterminado de “carros planos”, com quase 400 quilos, até às caixas. Depois de liquidados os euros necessários para aquela “carga”, eu levaria os carros, à vez, até ao balcão de entregas ao domicílio...
Fui para uma fila de apoio ao cliente. Mas parece que era o único a sofrer aquele “problema” de querer comprar demais para as evidentes capacidades físicas. E a funcionária foi taxativa: “A política da IKEA n
ão nos permite ajudar o cliente com os carrinhos”.

Pedi-lhe para repetir.
Ela repetiu.

Eu encolhi os ombros, disse um vago “nesse caso, não posso comprar na IKEA”, deixei tudo como estava, e onde estava, incluindo um saco amarelo com uns suportes para papel higiénico e seis copos perfeitos para gin tónico, e parti para o balcão das reclamações.
Reclamei formalmente.

E agora estou aqui a declarar que não vou comprar os tais roupeiros na IKEA e que daqui em diante evitarei o mais que puder – nem sempre se pode evitar, eu sei... – a IKEA. Senti-me discriminado por ser um homem só, percebi que a minha mãe, de 78 anos, jamais poderá comprar sozinha ali. Eu, que sempre defendi aquele conceito, que ía a Madrid de propósito para comprar na IKEA, que saudei a abertura da primeira loja em Portugal, percebi que a IKEA tem esse outro lado menos simpático e porventura injusto. O de discriminar quem não tem condições para cumprir as premissas da loja (jovens, urbanas, acasaladas, familiares, enfim, estatisticamente correctas no ano de 2008...), mesmo que esteja disposto a pagar por isso.
Um frio que se sente num espaço que se vende como quente. Uma desilusão num cenário que tinha tudo para ser perfeito. Um balde de água fria, foi o que foi.

14 comentários

Comentar post

Pág. 1/2

Blog da semana

Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2007
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D