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Pedro Rolo Duarte

16
Mar08

Cinco canções da minha vida

O meu amigo (praticamente familiar) António Macedo encontrou-me aqui há dias nos corredores da Antena 1 e pediu-me que escolhesse as 5 canções da minha vida e as justificasse em depoimentos de mais ou menos um minuto. Uma rubrica nova lá no rádio.

Estranhei a minha calma. Normalmente estes desafios põem-me nervoso e deixam-me a prolongar o serão uma ou duas noites.

Desta vez, não.
Cheguei a casa, fui ao arquivo do I-pod, e sem hesitações seleccionei as cinco canções. Percebi que não estava nenhuma cantada por Elis Regina, nenhuma de João Gilberto, nenhuma de uma qualquer fase de Pedro Ayres Magalhães, nenhuma de Rodrigo Leão. Poderiam estar, em vez dos Beatles, canções dos Aguaviva, de Carly Simon e de Sérgio Godinho, que povoaram a minha infância no hi-fi dos meus irmãos e pais. Ou seja, percebi que eu não tenho cinco canções da minha vida, tenho mais. Mas o facto de a escolha ter sido imediata e muito convicta, assertiva mesmo, levou-me a fechar o dossier e pensar: já está. Foi esta a minha selecção, e a justificação que dei:

(Escrevi a pensar na oralidade da rádio, não me macem com o preciosismo do português escrito...):

 
Portugal, Portugal (Jorge Palma)

Quando o meu filho era miúdo, passávamos férias na Zambujeira do Mar e era frequente encontrarmos, ao final da tarde, na praia, um tipo magro, com ar um bocado negligente, mas sempre muito atencioso, e que falava longamente comigo por entre umas cervejas ou umas caipirinhas. Às vezes falávamos de música. O meu filho, que era fã do Rui Veloso e achava que toda a música portuguesa se concentrava no Chico Fininho, ficou surpreendido quando eu lhe disse que aquele homem de cerveja na mão e cigarro ao canto da boca era um grande compositor, um notável intérprete. Era o Jorge Palma. Então o meu filho pediu-me que lhe mostrasse canções do Jorge Palma – e porque quis que ele ouvisse um homem que o pai gostava de ouvir, escolhi as canções meigas e suaves do Jorge, como a Canção de Lisboa, próprias para os ouvidos de uma criança com cinco anos. Não lhe mostrei ainda a mais notável das canções, a única que certa vez passei 6 vezes seguidas num programa de rádio. Escolho-a hoje, por achar que é o mais fiel retrato de um país - quando foi composta, há 25 anos, quando a conheci, há 15, e hoje, sempre que a oiço. Talvez este seja o lado B do hino nacional. Um dia quero mostrá-lo ao meu filho – porque um dia ele vai ter de perceber onde vive afinal.

 

Lucy in the Sky with Diamonds (The Beatles)

Eu era muito pequenino quando os meus pais trouxeram o album “Sgt Pepper’s...”, dos Beatles, ao meu irmão. Mas aquela capa colorida cheia de figuras - que de todo eu sabia quem eram... – atraía-me, e havia qualquer coisa de embalar nas canções, qualquer coisa de canção infantil, sofisticadamente infantil... Acho que “Lucy in the Sky with Diamonds” terá sido a minha primeira canção da vida. Mal sabia que, 20 anos mais tarde, ao ouvi-la novamente, ia descobrir-lhe o poço de virtudes que todo o disco representa. Modernidade, simplicidade, genialidade. Tudo num disco só. Os Beatles continuam a ser, para mim, a mais absoluta prova da existência de um ser superior. Um ser humano, evidentemente.

 

Sueño con Serpientes (Sílvio Rodrigues, Mercedes Sosa, Milton Nascimento)

De cada vez que oiço o começo desta canção, a voz potente de Mercedes Sosa citando Brecht, regresso a um passado juvenil militante onde a paixão e o amor se traduziam em canções, poemas, e atitudes politicas. Regresso a um tempo onde aprendi valores que nunca mais me abandonaram: lealdade, fraternidade, solidariedade. Regresso a um tempo de utopia – que vai longe, e ainda bem, mas do qual guardo os melhores ensinamentos e esqueço os erros clamorosos e as fraudes hoje visíveis. Esqueço o pior, lembro o melhor. Entre o melhor desse tempo estão canções como esta.

 
Era um redondo vocábulo (José Afonso)

São anos de vida assim: sempre que me perguntam qual a melhor canção portuguesa de sempre, eu digo simplesmente “Era Um Redondo Vocábulo”, José Afonso. Sei que é injusta esta escolha – porque eu não conheço todas as canções portuguesas de todos os tempos. Mas é com essa noção de presumível injustiça que ainda assim escolho esta. Ela reúne, a um tempo, o melhor de José Afonso e do seu tempo: a poesia desconstruída, os notáveis arranjos que vão de Coimbra a Angola e voltam, passando por Lisboa a atravessando tempos e tempos, a composição absolutamente irrepreensível de um ambiente, de uma paisagem, onde entramos em apenas segundos e por lá ficamos minutos. Por lá ficamos até ao fim. A canção é redonda, como redondo é o vocábulo – e o génio está ali. Por isso está aqui.

 
Forbidden Colours (David Sylvian)

Apaixonei-me pela música de David Sylvian no tempo dos Japan. Havia qualquer coisa de profundamente romântico e ao mesmo tempo visceral naquelas composições, e percebi que essa mistura provinha da figura de David Sylvian. Quando começou a carreira a solo, tornei-me admirador confesso. Não me lembro de antes nem depois ter tido este sentimento de admiração incondicional por quem quer que seja. Algures nos anos 80 fui surpreendido por uma paixão inesperada na minha vida. O primeiro filme que vi com essa... bom, com essa rapariga, éramos miúdos, chamava-se “Merry Christmas, Mr. Lawrence” – e nesse filme entrava David Sylvian e estava lá esta canção que escolhi. Achei que era um sinal que não devia desprezar. A canção, as canções de David Sylvian acompanham-me desde aí como um livro de cabeceira. Quando veio a Portugal, há 6 anos, comprei 3 bilhetes para a plateia do Coliseu. Queria estar sozinho, e à vontade, sem ninguém ao lado. Sentei-me no lugar do meio e ouvi ao vivo as canções da minha vida. Como esta.

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