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Pedro Rolo Duarte

10
Dez13

A memória é lixada

Tenho a profunda convicção de que, vivo, Nelson Mandela convidaria todos estes cromos para jantar. Mas não é demais recordar episódios como este, que leio no Público online:

 

"A libertação de Nelson Mandela foi reclamada por actor Mário Viegas, quando protestou contra a polémica presença do Presidente da África do Sul, Pieter Botha, e do ministro dos Negócios Estrangeiros, Pik Botha, na Madeira, a 13 de Novembro de 1986.

“ANC! Mandela! Mandela”, gritou Viegas quando os responsáveis pelo regime racista entravam nas adegas da Madeira Wine Company, no centro do Funchal, perto do Teatro Municipal, onde estava a ser representada Catástrofe, de Samuel Beckett, com encenação e cenografia do actor. "Estava na avenida [Arriaga], quando vi muitos carros pretos a parar. De um deles, saiu Pieter Botha, o Presidente da África do Sul, que visitava a Madeira. Não me contive e comecei a gritar, de punho direito erguido, 'ANC! Mandela!', 'You are a racist' – uma vergonha, reconheço”, relatou numa entrevista à RTP1 o actor, que faleceu em 1996.

Viegas descreve assim as reacções do visitante e do seu anfitrião: “O Botha foi, no entanto, impecável. Virou-se para mim e disse: 'OK, it's your opinion'.  O Alberto João estava estarrecido”. No dia seguinte, acrescenta, o Jornal da Madeira, propriedade do governo regional, “chamava-me esbugalhado, esquerdista, otelista e convidava-me a sair da ilha”.

A calorosa recepção proporcionada pelo chefe do governo regional ao Presidente da República da África do Sul, Pieter W. Botha, e ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Pik Botha, motivou um protesto da Assembleia da República, aprovado com os votos de PS, PRD, PCP e MDP/CDE e contra de PSD e CDS. A visita do “principal responsável do apartheid” à região “põe em causa o princípio da unidade da política externa portuguesa” e contraria “o sentido da história, da liberdade e dos direitos humanos” que condena aquele regime, frisa o documento.

Numa declaração política que precedeu a discussão do voto, José Carlos Vasconcelos (PRD) lembrou que a visita ocorria num momento em que "a CEE, os EUA e outros países da OCDE decidiram passar da condenação formal do regime do apartheid a medidas concretas para o combater”. E que a atitude de Jardim atentava “contra a unidade de acção externa do Estado português, diminuía a credibilidade da nossa posição na CEE”, “pode prejudicar, a prazo, as potencialidades de Portugal como interlocutor na África Austral” e ser “prejudicial à grande comunidade portuguesa, designadamente madeirense, na África do Sul”.

Vasconcelos recordou ainda que a recepção à comitiva dos Botha ocorria na sequência da atitude das autoridades regionais de “desrespeitar ostensivamente o luto nacional pela morte do Presidente Samora Machel, um amigo de Portugal, decretado pelo Governo da República”. “Duas semanas depois, inacreditavelmente, [Jardim] recebia de braços abertos o Presidente de um regime universalmente condenado pela violação dos direitos humanos”.

No debate, Manuel Alegre (PS) criticou o silêncio do primeiro-ministro face à atitude de Jardim, “um silêncio revelador de falta de coragem política e de sentido de estado”, “um silêncio que só pode ser interpretado como de cumplicidade ou capitulação”.

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