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Pedro Rolo Duarte

26
Mar08

História de sonho para o casal Fisco & Asae

(O que eu penso sobre o tema dos casamentos e do fisco está no post de ontem...)

... Mas as notícias do “Público” empurraram a minha memória para uma história engraçada.
Casei nos idos de 1994 e organizei com a minha (agora) ex-mulher uma festa de arromba, feita mais ou menos à nossa medida e dos nossos convidados. Espelhando algumas das pancadas de cada um – eu, por exemplo, exigi que o café fosse expresso e estivesse disponível, junto com sobremesas e muito álcool, logo que os pratos começassem a ser servidos, para que quem quisesse não tivesse de esperar pelo fim da sequência do jantar -, o “evento” teve pouco de cerimonioso e muito de festarola.
Dado que a noiva (e toda a sua família) era viciada em doces, e mergulha regularmente em piscinas de açúcar, ovos e amêndoas, havia uma generosa e farta mesa de doces, que nem a “fúria do açúcar” daquela ala do casamento conseguiu devorar. Sobraram bolos inteiros, ou com uma fatia cortada, meios-bolos e mousses e tartes e tortas. Acho que do lado do Jameson, apesar de tudo, sobrou menos...
Quando voltei da lua-de-mel, quis almoçar com os responsáveis pela produção da festa para lhes agradecer o profissionalismo e o empenho na coisa. Lá fomos. Pareceram-me um pouco embaraçados com algo que visivelmente me escapava. Contaram-me então que, no dia seguinte ao casamento, um convidado voltou ao “local do crime”, bateu à porta, e abordou um dos elementos do staff que estava a desmontar o “cenário”. Pediu-lhe para ter acesso à mesa dos doces, pois reparara que tinha sobrado muita coisa e, dizia ele, “dado que está tudo pago”, queria levar um bolo que lhe tinha agradado particularmente.
O funcionário, delicadamente, explicou-lhe que não podia satisfazer o pedido, porque os doces já tinham voado dali para fora. Para onde? “Isso não sei”, disse o rapaz...

O candidato à guloseima protestou, protestou, mas sem sucesso.

E o funcionário contou o episódio aos patrões, que por sua vez se sentiram na obrigação de me explicar por que motivo os doces que sobraram, inteiros ou às postas, desapareceram sem deixar rasto. Para mim o tema era irrelevante, mas a resposta foi surpreendente e ficou cá para sempre: os doces do meu casamento foram engrossar o mercado de “segunda mão” da restauração. Ou seja: foram vendidos, na manhã seguinte, bem cedo, às fatias, para as tascas de Lisboa, prática que as empresas de catering seguem com sucesso, duplicando assim a facturação dos produtos. Os noivos pagam primeiro na íntegra, os pequenos restaurantes pagam de novo, com o devido desconto, no dia seguinte. Isto explica o facto de eu próprio ter reparado, uma ou outra vez, naqueles balcões de vão de escada, em travessas com fatias estranhas de bolo tipo aniversário, tipo noiva, tipo... tipo segunda mão...
Diz que é um bom negócio. Excelente para reportagem, e um doce para os rapazes do Fisco, imagino-os eu, de braço dado com os amigos da Asae.
Bom, mas isto passou-se em 1994. Agora não sei, continuo divorciado.

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Retrovisor. Quem lia A.B.Kotter no velho Semanário habituou-se a gostar de ler José Cutileiro. Neste blog, a escrita é outra, mas continua a ser uma delícia. Pena que o "Expresso", que o tem como colaborador, não lhe dê mais espaço...

Uma boa frase

“Este ano será de vida nova, não por mérito ou culpa própria: nós por cá todos bem. Mas Trump, Brexit, Putin, Estado Islâmico, tudo cada vez mais desigual e cada vez mais perto de tudo, vão meter-nos as novidades pela porta dentro, boas e más. Sobretudo más." José Cutileiro, Retrovisor

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