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Pedro Rolo Duarte

01
Abr08

O Padrinho

Assim falou ontem, na Antena 1, o meu amigo e compadre João Gobern, a propósito do facto de ter tomado conhecimento da minha mudança de casa através deste blog:
“Confesso que me deu que pensar, aquela espécie de edital, anunciando ao mundo, pelo menos ao universo que por ali faz escala ou que ali passa ocasionalmente, algo que, no meu pensar, é quase um acto íntimo. Bem sei que, despersonalizando e divulgando esse momento de ruptura que envolve outra vez móveis desmontados, caixotes atafulhados de objectos úteis e memórias inevitáveis, esse desejado ponto de recomeço que se pretende ser também uma lavagem de alma, o meu amigo estava a justificar-se por antecipação, a pedir tréguas para eventuais deslizes profissionais e para putativas desatenções pessoais. Mas, lá estão as minhas limitações conservadoras, fiquei a invejar a naturalidade com que ele escancarava as portas, não da casa nova em que procura uma nova etapa, mas da casa da sua própria vida
Claro está que, depois, vieram ao de cimo todas as decorrências: acabei a pensar no incómodo das minhas próprias mudanças que nunca consegui evitar que fossem rupturas, mesmo quando desejadas, como foi o caso da mais recente, que secretamente continuo a desejar que tenha sido a última. Revivi as angústias daqueles julgamentos tão soberanos como momentâneos sobre o que é essencial e devemos carregar connosco e aquilo que, fazendo parte de um ciclo que se fecha, pode e deve ser deixado para trás. Se há uma dimensão fácil e óbvia – a dos livros, dos CDs e DVDs, de um ou dois móveis de estimação –, a mais morosa é sempre a dos papeis, das notas, dos cadernos tão utilitários que esgotaram o seu tempo de vida e só poderão vir a ter prontidão como memória futura. A suprema ironia está em que, com a dinâmica seguinte, até aquilo de que optamos por não nos separar corre o risco de passar anos em repouso de caixote, à espera de um alvoroço qualquer que implique a respectiva ressurreição. Impressiona o peso e a dimensão daquilo que carregamos connosco e que parece constituir um salvo-conduto para fintar o esquecimento. Mas talvez seja a única forma de nos preservarmos com integridade e sem buracos negros.
Quanto ao meu amigo e ao uso das novas capacidades tecnológicas para difundir notícia, também percebi que não podia ser intransigente – se eu próprio, tido como romântico, nostálgico e conservador, fintei há uns anos a distância e a circunstância adversa, pedindo namoro por SMS, por que diabo não havia ele de usar o blog para alertar de uma simples mudança de casa? Deve ser isto o tal pragmatismo de que tantos falam tantas vezes – não convence, mas resulta”.

Ponto primeiro: a designação “compadre”, já por si pede respeito. O facto do meu filho, seu afilhado, ter por ele uma especial e particular admiração – que vem do tempo em que o João, enquanto devorava pizzas, chamava “bulldozer” a um jogador do Benfica de apelido Aguiar, e dizia um ou outro palavrão, no decorrer dos jogos, que punha o António Maria em êxtase... -, acentua tal propósito. Não falando dos presentes mais vistosos de todos, sempre os do padrinho João...

Ponto segundo: Eu e o João temos décadas de experiência nesta relação sincera, duvidosa (e por isso romântica, e por isso para sempre, sem a mais sombra de duvida): à vez, fazemos de irmão mais velho um do outro; o que significa que também fazemos, à vez, de irmão mais novo.

Ponto terceiro: independentemente do que ficou escrito, o João tem sobre mim este mérito (cujo recíproco não sei se existe, mas no mínimo espero que sim...): deixa-me a pensar quando questiona o que faço, o que penso, o que digo. O melhor da nossa idade é isso: deixarmos de ter certezas e começarmos a deixar pergunta no ar. E ouvirmos as perguntas dos outros.
...
Talvez por isso, fiquei a pensar no que escreveu. Tentado a dar o braço a torcer. Bom.... Na verdade, sem resposta pronta... - mas também, sem contestação. Deixemos o tema a marinar, como as carnes mais difíceis de cozinhar. Ah, é verdade: a falar de gastronomia, também nos entendemos maravilhosamente...
(E com o melhor de tudo na mão: uma amizade com mais de 20 anos que permanece intacta, uma rocha impossível de destruir. Um bocado de mim lá a Norte, que tem um bocado igual aqui comigo. Não tem preço. Tem-nos a nós, João).

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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