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Pedro Rolo Duarte

05
Abr08

Sobre a humildade

Vi há dias um exemplar do Diário de Notícias datado de 1867. Papel impresso há 132 anos, num sábado, 16 de Novembro, ía o jornal no terceiro ano. Quatro páginas em formato grande, infelizmente grande de mais para os dias de hoje. A «imagem gráfica» dos jornais dessa época é conhecida: não há títulos nas notícias, nem fotografias, as ilustrações estão reservadas à publicidade e as sete colunas de cada página do jornal estão recheadas de informação, em letra miúda, separadas por «traços» a que nos jornais chamamos «filetes». Leio uma notícia. Diz assim:
«Consta-nos que chegou a Lisboa notícia de ter havido tumultos populares numa cidade de Inglaterra, cremos que em Londres, contra o governo inglês, tendo os tumultuários lançado fogo a algumas casas. Por ora não garantimos».
Noutra página:
«Notícias telegráficas dizem que houve grande borrasca no Adriático. Não temos pormenores».

Estou a transcrever notícias na íntegra. Mais esta:

«Sabe-se oficialmente que a Rússia e a Inglaterra estão de acordo na questão romana. Qual seja esse acordo é o que se ignora».

Como diria um amigo, «chamem-me romântico, mas é disto que eu gosto». Não há maior clareza na informação, ou na falta dela. Não há maior rigor, nem maior sentido jornalístico.
Não há nada a acrescentar.

Hoje, qualquer destas notícias poderia ter o mesmo volume de informação – mas ocuparia muito mais espaço e escaparia certamente à humilde declaração do «por ora não garantimos». Hoje, estas «notícias» tinham títulos, entradas, infografias, detalhes sobre os países e «caixas» explicando o que é uma «borrasca», comentários mais ou menos avisados, «desculpas» sobre a ausência de confirmações ou promessas de informação nos dias seguintes. Os «acessórios» tomaram conta da informação escrita e tornaram o telegrama num conto e a notícia num romance. Transformaram-se em «essenciais». Quanto muito, é à rádio – seguida, muitas vezes, pela televisão, à medida que a capacidade de resposta desta aumentou – que cabe o papel de amplificar o telegrama «de uma nota só», com a vantagem de poder acrescentar «notas» de meia em meia hora, quase de minuto a minuto. Para os jornais «resta» - e não levem a mal o «resta», porque dá muito trabalho a quem o faz... – procurar explicar, enquadrar, ir mais longe, analisar, opinar. Aos jornais resta o lugar do «historiador diário», nome que um dia há de ser dado ao jornalista.
Não vivi o tempo em que os jornais se faziam de colunas seguidas de informações avulsas, «Pelo vapor Amazon, chegado ontem de Londres, vieram mais 24 caixas com armamento, 78 com cartuxame e 4 com espoletas», «ontem pela manhã o mar virou um saveiro que estava encalhado em Paço d’Arcos», assim, em sequência, sem escala hierárquica nem «manchete». Mas confesso que, ao ler esta edição do Diário de Notícias de 1867, me apeteceu voltar ao eterno tema da humildade no jornalismo. Porque, para lá das evoluções da tecnologia que fizeram da imprensa algo mais do que uma soma de telegramas, para lá dos cento e tal anos que passaram, há algo nestas páginas de jornal que devolve o jornalista ao seu lugar, com ou sem internet, com ou sem computador, com ou sem curso superior: o de humilde relator de ocorrências. Capaz de escrever «e mais não sei sobre este assunto». Capaz de evitar a presunção de uma sabedoria que a própria rapidez de circulação da informação põe em causa a cada momento.
Por mais ingénuo e amador que fosse, o jornalismo de há 130 anos tinha sobre o de hoje a grandeza da humildade. Não voltaremos a ser como éramos. Mas, às vezes, devíamos reler o que se publicava então. Se outra virtude não tivesse, obrigava-nos, pelo menos, a pensar que, daqui a 130 anos, talvez alguém nos vá ler e deseje sinceramente acreditar no que escrevemos. Acreditará?

 
Ao sábado, reedições. Texto publicado no Diário de Noticias em 1998. Há dez anos.

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