Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pedro Rolo Duarte

19
Nov07

Fumo branco

Passaram 20 meses desde que deixei de fumar. Sozinho e sem qualquer espécie de ajuda, para lá de ansiolíticos e muitas horas a cozinhar. Oito quilos a mais, também. Fumava três maços de “Marlboro Lights ” por dia, e fumava desde os 11 anos. Para quem não fuma, esta contabilidade é absurda e faz pouco sentido – para quem fuma e/ou deixou de fumar, é de meridiana clareza: o que se vive quando se dá este passo é duro e difícil.
Custou-me brutalmente - e custa-me ainda – a passagem dos dias, das horas, a ausência das rotinas associadas aos cigarros, os efeitos da abstinência. Escrevi um livro que me ajudou a sistematizar as variáveis dos níveis de dificuldade diária, juntei o dinheiro que gastaria em cigarros para me compensar, e fundamentalmente fiz sorrir a minha mãe e tranquilizei o meu filho. Valeu a pena, evidentemente. Não digo que sou “ex-fumador”, digo que sou um fumador que decidiu não fumar mais.
Quando vi a campanha publicitária em que o Diogo Infante aparece a dizer que deixou os cigarros, fiquei curioso sobre a ideia e o que estaria por detrás dela. Pareceu-me óbvio que se pretendia anunciar algo mais do que a decisão do actor.
Descobri então que aquela campanha, da “Pfizer”, em associação com a Sociedade Portuguesa de Pneumologia, existe porque a farmacêutica tem um medicamento inovador que parece ser eficaz sobre a vontade de fumar – ora, como é proibida a publicidade a medicamentos, esta foi a forma possível de “soprar aos ouvidos” dos fumadores e do comum dos mortais algo como: vão ao médico, talvez o tipo vos receite o nosso medicamento, sobre o qual infelizmente não podemos falar...
É ridículo . O mesmo governo que cria as mais severas leis antitabágicas, e que passa a vida a tentar regular a nossa saúde e os nossos hábitos, persiste num olhar complexado sobre o trabalho de comunicação da industria farmacêutica, transmitindo para todos nós a clássica imagem de uma indústria que lucra com a miséria alheia...
Neste caso, a miséria é deixar de fumar como eu deixei... E a riqueza seria permitir que os fumadores soubessem facilmente que existe um produto que os pode ajudar a deixar de fumar.
Sempre defendi que, em geral, a legislação nacional sobre a publicidade é hipócrita e subsiste numa cultura paradoxal em relação à sociedade de mercado. Mas este caso do Champix – assim se chama o medicamento, céus, cá está o nome, cometi um crime?! -, é para lá de absurdo. Parece um sketch do Gato Fedorento com o professor:
- Pode haver medicamento?
- Pode
- Deve?
- Deve.
- Existe?
- Existe.
- Mas pode falar?
- Não pode.
- E se falar?
- É crime.
E já agora...
- É comparticipado?
- Não é.
- Devia?
- Claro que devia.
No Reino Unido, o Champix passou a ser financiado pelo Serviço Nacional de Saúde em Julho passado.
 
Nota de rodapé antes dos comentários: não tomei Champix , porque deixei os cigarros antes de se vender entre nós (e na verdade não sabia sequer da sua existência). Não tenho qualquer interesse na divulgação destes factos – a não ser contribuir para que outros possam sofrer menos do que sofri e sofro.

13 comentários

Comentar post

Pág. 1/2

Blog da semana

Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2007
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D