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Pedro Rolo Duarte

21
Abr08

Três quilos

Desta vez decidi pesar.
Três quilos.
No sábado, comprei 3 quilos de imprensa. A saber: Expresso, Sol, Público, Correio da Manhã, 24 Horas, ABC, Nova Gente, El Pais. Agora estou a juntar a papelada que vai para o lixo e, tirando os jornais espanhóis, que leio mais tarde, e que já se acumulam ao lado do El Mundo de domingo, li com gosto e/ou interesse mais ou menos 400 gramas de papel impresso. Dispensei ou ignorei, portanto, 2,6 quilos.

O que fica desta contabilidade?

Fica, em primeiro lugar, um saudável desprezo pela publicidade acumulada sob a forma de cadernos, folhetos, encartes, desdobráveis... No tempo da imprensa gratuita, começa a ser paradoxal comprar publicações que se fazem acompanhar de subprodutos comerciais.
Terão os anunciantes a noção de que boa parte do “público alvo” nem sequer dispensa um segundo aos seus investimentos “encartados” na imprensa, ou àqueles suplementos comerciais que parecem concebidos para uma aldeia de província dos anos 60?

Adiante.
Parte do que não li, já a net e televisão me tinham dado. Ou seja: fica, uma vez mais, a vaga intuição de que a imprensa não está a saber lidar com os novos cruzamentos de informação, com os formatos desmultiplicados de media, com a forma como os consumidores pescam informação nos “painéis” por onde passam (jornais são hoje, também, painéis de rua...).
Outra parte, não era suficientemente consistente: basta olhar o Magazine do El Mundo de ontem dedicado à gastronomia (tendo como pano de fundo o Ano Internacional da Batata), para não poder apreciar da mesma maneira o especial que a “Única” lhe dedicou no sábado. É mais ou menos como comparar a beira da estrada com a estrada da beira.

E a parte que falta, chegava tarde. Um exemplo sem importância: o critico do “Expresso” diz mal de um livro de Pedro Paixão que eu já decidi não comprar há pelo menos 15 dias, só por informação que obtive de forma gratuita, e sobre o qual já tinha lido na net há um mês. Ah, é verdade: livro está disponível na FNAC há pelo menos 10 dias. Só ontem no “Expresso”? Editores de livros e jornais talvez devessem repensar a relação que estabeleceram no tempo em que não havia internet...

A mudança que se está a operar na forma como se consome, digere e pensa o que sucede à nossa volta é demasiado rápida. E estes três quilos que carrego para casa são lentos, muito lentos. Nalguns casos incomodativos, porque também começamos a pagar pelo lixo de que nos desfazemos, ou pela dificuldade em fazê-lo...

O tempo. O tempo é a medida da realidade actual. Em breve, também a do dinheiro. E tudo traduzido em peso, se nos der para aí...

Não sei se me fiz entender. Mas era isto dos quilos. Para hoje.

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Retrovisor. Quem lia A.B.Kotter no velho Semanário habituou-se a gostar de ler José Cutileiro. Neste blog, a escrita é outra, mas continua a ser uma delícia. Pena que o "Expresso", que o tem como colaborador, não lhe dê mais espaço...

Uma boa frase

“Este ano será de vida nova, não por mérito ou culpa própria: nós por cá todos bem. Mas Trump, Brexit, Putin, Estado Islâmico, tudo cada vez mais desigual e cada vez mais perto de tudo, vão meter-nos as novidades pela porta dentro, boas e más. Sobretudo más." José Cutileiro, Retrovisor

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