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Pedro Rolo Duarte

03
Mai08

Sobre a pendular regularidade dos estados de espírito

Sempre admirei as pessoas que conseguem ter uma única maneira de estar na vida. Sempre admirei os optimistas, exactamente da mesma forma que sempre admirei os pessimistas. Ou os loucos. Ou os maníacos. Ou os coleccionadores. Invejo a pendular regularidade dos estados de espírito, do humor, da forma como encaram cada dia. Conheço dois casos clássicos e antagónicos: os do Alberto e do Carlos. O primeiro é um pessimista crónico, um tipo novo que gosta de se sentir envelhecido, um homem que, quando fala, nos obriga a aterrar e a constatar que, em geral, o mundo em que vivemos é uma merda. Este pessimista dos quatro costados é um profissional respeitado, bom pai de família, e a vida tem-lhe corrido de feição. O pior é que, por detrás do seu pessimismo e do ar desolado com que observa o planeta, ele é um tipo feliz.
Já o Carlos tem o registo oposto ainda que com o mesmo resultado: tem tudo para ser um homem infeliz, mas é um optimista e está bem-disposto mesmo quando é impossível estar bem-disposto – por exemplo, quando o saldo no banco faz o seu cartão de crédito esfumar-se em pó. O Carlos é o único ser humano que conheço que parece sempre rico apesar de estar sempre no limiar da pobreza. Ao pé dele, os meus problemas são gotas de água num oceano – e por conta dessa comparação já ultrapassei muitas pequenas crises. Basta-me telefonar-lhe e os meus pesadelos transformam-se em sonhos.

O Alberto e o Carlos são paradigmas do homem que nunca consegui ser. Acordo hoje optimista e odeio as pessoas que não conseguem ver o lado bom do mundo, que encontram defeitos em tudo e em todos, que só conseguem viver numa amálgama de maus fígados. Acordo amanhã pessimista e desejo mudar de profissão, sinto-me indiferente perante as misérias e glórias próprias ou alheias. Há dias em que tenho orgulho no jornalismo – e outros em que sonho com um pequeno restaurante no Alentejo onde todos os dias cozinho ensopado de borrego. Há dias em que encontro qualidades no governo, tenho orgulho em ser português, dou graças a deus por estar aqui – e outros em que compro o «El Pais» para ver os anúncios de emprego em Espanha no caderno «laranja» dos domingos. Nesses dias, desejo para mim uma vida noutro país, noutro universo – como dizia uma alemã que conheci, num país onde a água tenha pressão na torneira...

Equilibro-me nos dias sem conseguir encontrar um fio condutor coerente e lógico. O meu acordar determina o meu feitio – e o meu feitio determina a minha opinião. Às vezes, muito raramente, gosto do que escrevo – mas em geral discordo do que escrevi e sinto-me muitas vezes ridículo por escrever. Como se tivesse o direito de exibir a minha opinião, como se tivesse a mais pequena autoridade para escrever uma linha num jornal com 120 anos e muitas dezenas de milhares de leitores.

Gostava de ser um optimista, como o Carlos, ou um pessimista, como o Alberto. Gostava de ser contra ou a favor. Verifico, com tristeza, que faço parte do vasto grupo daqueles que se agarram ao «no entanto» para poder oscilar em função dos dias, mas que não abdicam dos seus momentos de profunda e inabalável convicção. Se fosse hoje, e se tivesse de ser, diria mal de mim próprio. Se esperar por amanhã, talvez encontre uma pontinha de orgulho para me defender. Os jornais não esperam por mim – e eu não consigo ser só um. A vida era muito mais divertida quando era radical e achava que o planeta girava à minha volta. Tinha 18 anos e o mundo acabava no fim da minha rua. Um dia acordei e percebi que havia sempre mais uma rua a seguir. Tornou-se tudo mais difícil. Nunca mais consegui ser feliz. Ou coerente. Ou sequer irritantemente convicto. Perdi a bela oportunidade de ser um cronista com estilo.

 
Ao sábado, reedições. Texto originalmente publicado no Diário de Notícias, algures em 1998

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