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Pedro Rolo Duarte

19
Mai08

Na volta do correio

 

Estou à espera que o meu filho desça. À porta de casa da mãe dele há um marco do correio vermelho. Sempre houve, lembro-me do tempo em que eu depositava ali cartas. São 16:45 de uma tarde qualquer e eu estou com os quatro piscas ligados no carro, em segunda fila.

À minha frente pára uma carrinha dos Correios. Quatro piscas. Sai o motorista com uma argola cheia de chaves na mão, escolhe a chave certa, abre o marco do correio. Tira de lá, não sei, uma meia-duzia de envelopes. Volta para a carrinha e arranca. A estação dos correios mais próxima fica a 500 metros.

Interrogo-me: quanto tempo mais vou assistir a este momento em que o marco do correio vermelho é aberto e um homem tira manualmente as cartas que meia-duzia de pessoas ali colocou, por não ter Internet ou Fax (ou apenas preferir escrever uma carta, uma simples carta, como tantas vezes faço, quando acho excessivo qualquer outro meio de comunicação)? Não deverei eu fruir este instante com outra intensidade, antes que desapareça?

O António Maria aparece, por fim, e a sua presença interrompe naturalmente este pensamento.

Mas ele volta mais tarde.

E eu imagino um tipo engravatado, numa consultora excelentemente equipada e instalada, a terminar o seu parecer e a entregá-lo a um outro ainda mais engravatado que, numa reunião “de apresentação”, num hotel onde cheira a café e flores, ditará, com a meridiana tranquilidade das vacas quando pastam: “a solução passa por deslocalizar os marcos do correio para dentro das estações do dito correio. A rentabilidade da empresa recuperará para os tempos anteriores ao mail, dado que se poupa em equipamentos, meios humanos, deslocações, frota, enfim...”.

Ou seja, adeus marcos do correio vermelhos na cidade.

Na verdade, eu não percebo por que raio ainda há marcos do correio a 500 metros de estações dos CTT. Mas confesso que me incomoda pensar que vão inevitavelmente desaparecer – mesmo sabendo que todas as cartas que escrevi e mandei nos últimos dois anos não tiveram qualquer espécie de resposta.

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Retrovisor. Quem lia A.B.Kotter no velho Semanário habituou-se a gostar de ler José Cutileiro. Neste blog, a escrita é outra, mas continua a ser uma delícia. Pena que o "Expresso", que o tem como colaborador, não lhe dê mais espaço...

Uma boa frase

“Este ano será de vida nova, não por mérito ou culpa própria: nós por cá todos bem. Mas Trump, Brexit, Putin, Estado Islâmico, tudo cada vez mais desigual e cada vez mais perto de tudo, vão meter-nos as novidades pela porta dentro, boas e más. Sobretudo más." José Cutileiro, Retrovisor

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