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Pedro Rolo Duarte

25
Mai08

O papel e a tinta

Os livros são um dos raros negócios em que faz sentido dizer que “as pessoas são insubstituíveis”. De tão óbvio parece tolo: não há outro Lobo Antunes, nem outro Saramago. Não há outro Domingos Amaral. Não há outro Rodrigo Guedes de Carvalho. Não há outro Sousa Tavares. Não há outro Alves Redol. Não há outro escritor que não seja aquele – pode haver escritores diferentes, diversos, novos. Mas não são aqueles nem as obras daqueles.

Quando um autor abandona uma editora, a empresa perde parte do seu valor. Efectivo e de mercado. É uma perda maior do que o trabalhador que muda de emprego numa direcção de marketing ou num departamento de recursos humanos. Porque sai o autor (e os seus leitores...), mas também o seu passado, que é o seu “fundo de catálogo”. A obra de um autor é a um tempo parte da carne e do sangue de uma editora - justamente porque um escritor é ele, o livro que se segue, e mais dez ou vinte para trás.

Uma editora é o livro que publica amanhã – mas o valor de uma editora está no que já publicou. É a sua fama e conquista (o seu conteúdo, no fundo) que determina o seu valor – como será o seu desempenho e horizonte que lhe dita a longevidade.

Dito isto, faz-me a maior das confusões o que se vive no mercado editorial português (de que o episódio da Feira do Livro foi o mais visível dos momentos - e até parecia um “spot promocional” da verdadeira novela que vai por aí).

E a confusão que me faz é esta: por um lado, vivemos uma pequena revolução nas dimensões do negócio, na forma como ele se faz, até na filosofia da edição. E essa revolução parece-me boa, porque cria grupos sólidos e grandes, abrindo a bolha de ar para, “cá em baixo”, poderem florescer os pequenos projectos, os nichos, as incubadoras de autores. Quando tudo era de média dimensão, o que havia era sufoco. Mas, ao mesmo tempo, e por outro lado, no que vejo desta mudança menospreza-se – para não dizer que se despreza... – a matéria-prima de que o negócio é feito. Os escritores. Os autores. Como se os empresários não soubessem que eles são únicos e insubstituíveis.

Ou seja: discute-se o papel em branco enquanto se deixa correr para a sarjeta a tinta que lhe dá sentido. Nunca tinha visto tal paisagem no empreendedorismo nacional. Não me parece o melhor caminho para o triunfo desta revolução.

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