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Pedro Rolo Duarte

08
Jun08

Pedro Mana em “Não quero comer o alho”... (Parte II)

 

(Primeira parte do post publicada ontem, 7 de Junho. Aqui vai então o que resta desse texto antigo...)

...

O cravinho é um condimento indispensável em inúmeros pratos, mas que eu saiba não se mastiga nem engole. A folha de louro, óh querida folha de louro, sem ela o que seria do bife? Mas não se come o louro, não senhor. Então por que raio se come o alho? Eu sei que afasta os vampiros, é antiespasmódico, neutraliza gases, estimula a secreção de bílis, é digestivo, diurético, tonificante, expectorante. É bom para equilibrar as taxas de colesterol e triglicéridos; reduz a hipertensão, descongestiona as vias respiratórias. Até ajuda a eliminar toxinas. Sei mesmo que há quem goste de o trincar e se esteja nas tintas para quem o vai respirar a seguir. Mas eu não alinho nisso. Já paguei a factura. Do belo sabor que dá aos alimentos a trincá-lo vai a distância que me separa de qualquer humana depois de comer uma açorda. E eu não pago duas vezes a mesma conta, como é sabido e constitui tradição oriental. Além de que gosto muito de “humanas” depois de uma boa refeição...

O problema é que adoro açorda. Aprendi a fazê-la com o meu avô. Ele enchia o fundo de uma panela com azeite, sobre ele deitava alhos (lá está...), pão velho desfeito em bocados pequenos, e quando começava a levantar fritura despejava água e misturava tudo, pacientemente, em lume brando, com colher de pau, durante uns bons 10 minutos. No fim, um pouco de sal, coentros. Desligava o lume e misturava um ovo cru. Mexia com força, para o ovo ligar ao resto, e estava feita a açorda. Era deliciosa, sabia a alho, mas eu não comia alhos. Que fazia o meu avô Ma Na?

Foi recordando aquele homem forte e baixo, já careca, que pela tarde dentro adormecia numa cadeira de balanço lendo as páginas enormes de «O Século» (... e deixando cair no chão a beata de um eterno «Definitivos» ), foi rebuscando na memória a imagem dele na cozinha a preparar a açorda para mim e meu irmão - foi assim, de imagem em imagem, que repentinamente percebi o segredo. Tão simples, tão fácil. E no entanto...

O meu avô Ma Na era simples no pensar, simples no agir: escolhia gordos e grandes alhos “de uma só cabeça”, justamente nascidos na China, para que se vissem melhor entre a amálgama da açorda, descascava-os à mão, e colocava-os apenas cortados pela metade longitudional sobre o azeite quente. Eles deixavam escapar o inconfundível sabor para ao azeite, depois para o pão. Perfumavam toda a açorda. No fim, quando esperávamos, já sentados à mesa, pelo tacho, víamos o meu avô debruçado sobre a panela, alguns minutos, com uma colher de chá na mão. O que fazia ele? Um a um, tirava os alhos e deixava-os adormecer num prato. O que lhes fazia depois, ainda hoje não sei. O que sei é que a açorda tinha o sabor mas não tinha o que lhe dava sabor. E foi assim que, tendo perdido uma bela noite, ganhei sabedoria recordando os gestos de Ma Na na cozinha com vista para o Casino Lisboa. De imediato avisei o Miguel Ca e deixei recado ao Carlos Arturo. É improvável que esses dois mestres-cozinheiros voltem algum dia a Lisboa, agora que meu pai repousa em paz, e eles se fizeram à vida na China. Mas se algum dia espalharem a boa nova da açorda pelo Oriente, vão pelo menos pensar duas vezes antes de começaram a esmigalhar os alhos. «Nunca sabes com quem tens de falar depois do jantar, menos ainda beijar» – não é assim que o povo diz aqui em Lisboa, do Bairro Alto à Bica do Sapato?

 

Ao fim de semana, memórias. Este fim de semana, em duas partes...

... Durante os felizes meses que durou, algures no final dos anos 90 do século passado, a revista “A Preguiça”, dirigida por Miguel Esteves Cardoso e publicada como suplemento de “O Independente”, era a mais fina ementa do restaurante perfeito (aquele que mistura o melhor das tascas com o supra-sumo do mais elegante restaurante). Coincidiu a sua publicação com os meus primeiros passos dedicados na cozinha. Então, publicava regularmente as minhas receitas na revista – mas, para não as debitar simplesmente, inventei um personagem, o Pedro Mana, português de Macau mais chinês do que outra coisa qualquer. Depois inventei uma família à sua volta. Por fim, desejei que fosse abastado e tivesse cozinheiros e motoristas... Não correu mal. Não sei que é feito do Pedro Mana. Mas agora, a reler este texto, apeteceu-me fazê-lo renascer. Quem sabe, mais um blog um destes dias...

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Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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