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Pedro Rolo Duarte

15
Jun08

O bichinho da rádio

Quem já teve oportunidade de fazer rádio sabe bem do que falo: o bicho estranho que se entranha em nós, uma espécie de caso amoroso eternamente mal resolvido, um vírus que anda cá dentro, uns dias adormecido, aparentemente extinto, outros dias desperto como se fosse novo no corpo. O bicho da rádio fica para sempre, e com o tempo a única mudança que nele se nota é a frequência com que nos acorda. Varia sem que consigamos descortinar a origem dessa frequência, ou da falta dela.

A última vez que fiz rádio com regularidade foi em 1996, no estertor dos chamados «programas de autor» nas rádios generalistas. Disseminava-se pelas ondas a «praga» das «playlists» e dos «formatos», e da concepção de rádio como um mero leitor de cd’s, e deixava de haver lugar para a expressão máxima das potencialidades do meio: palavra, som, música, um encadeado de ideias e de formas sonoras que resultam em imagens, em projectos, em «coisas que fascinam». Daí para cá, até como ouvinte me perdi no tempo. Passei a «usar» a rádio como um «serviço»: notícias, trânsito, notícias, trânsito. Pouco mais.

Por outro lado, com algumas excepções, a produção musical destes últimos anos não acordou o bicho que anda cá dentro. Parece perdida num limbo vulgar e já ouvido, e só mesmo algumas lanças em África – um Rodrigo Leão, uma Madredeus, uns Clã – acabam por quebrar a monotonia dos gira-discos. Nos «meus tempos» (desculpem lá a nostálgia precoce...), ou eu estava mais atento ou havia mesmo mais criatividade e ousadia. Não interessa nada agora...

... Interessa que, na semana passada, o bichinho adormecido do rádio, alojado algures num canto do coração, ao lado dos amores profundos e aparentemente perdidos, deu sinal de si. Primeiro a medo, como quem acorda estremunhado de uma noite mal dormida. Depois, com uma espreguiçadela, o bicho saltou do coração para a cabeça. Anda a moer-me o juízo há dias e dias. Quer saltar cá para fora como há muito não sucedia. Terá razões para isso?

Terá. E o culpado chama-se Sérgio Godinho. E o objecto do crime chama-se «Irmão do Meio». Há oito dias que não consigo deixar de ouvir permanentemente este disco, esta colecção de «bigamias», como o autor lhe chama, esta montra do melhor que um compositor pode querer da vida: a segunda vida das suas canções, a nova vida do seu talento. O disco é um projecto conhecido: 15 canções, com outros tantos convidados, escolhidas da longa carreira de Sérgio. Duetos e rearranjos, conceitos arrojados e sonoridades absolutamente novas. Canções que nos transportam até ao passado, que trazem agarradas memórias e emoções, mas cuja «renovação» e interpretação confundem os tempos, e nos deixam numa doce dependência, numa saudade ainda possível de «matar a grito».

O bicho da rádio é sensível a estas coisas. Acorda-me e ao acordar-me deixa-me de rastos: o que eu queria agora era ter um programa na rádio e poder mostrar uma, duas, muitas vezes estas canções. Deixar crescer a força avassaladora de um hino como «Que Força É Essa» e juntar-lhe um texto revolucionário, misturar «Pode Alguém Ser Quem não É» com a imagem da senhora de preto, «dor ou saudade», da tristeza de palavras que colecciono, e depois abrir fogo sobre «Isto Anda Tudo Ligado». Comparar os originais com estas novas canções – são realmente novas, e é nessa característica que o disco ganha o estatuto de genial obra plástica – e nunca, mesmo nunca, esquecer de passar, como se fosse um genérico, a «Lisboa que Amanhece» que junta Sérgio e Caetano no ponto mais alto das estrelas.

Cada canção me inspira um programa, palavras, uma conversa, uma ideia, uma mistura, uma aproximação. Cada acorde me acorda. Cada palavra me empurra para um texto. O bichinho, cá dentro, «pula e avança» sem ser «bola colorida». Nem eu, criança. Apenas um homem rendido ao talento de muitos homens centrados num só, cuja obra continua, tantos anos depois, a ter em si a chave que lhe dá sentido: sensibilidade e talento. Génio, em resumo.

A mim, no meu canto, ouvindo e voltando a ouvir o «Irmão do Meio», só me resta fazer como quando a gripe ataca. Esperar que passe. O bichinho há-de voltar a adormecer. Até lá, sofro com a angústia da pergunta que me deixa a dançar nos olhos: «pode alguém ser quem não é»?

 

Aos fins-de-semana, quando calha, memórias e reedições. Esta crónica foi, na sua versão original, publicada em 2003 no Diário de Notícias. Quis o tempo a o destino que entretanto se desactualizasse: graças ao Rui Pego, estou de novo na rádio (na Antena Um, uma das raras estações onde ainda é possível assinar programas, e onde se cultivam autorias...) e posso partilhar canções e palavras e ideias. O bichinho não morre e.. não, não pode alguém ser quem não é.

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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