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Pedro Rolo Duarte

24
Nov07

A barriga

Eu tinha acabado de transferir para o quarto as camisas de Verão, quando tudo aconteceu. Avistei uma camisa que não usava há um ano. Cor de laranja. Pareceu-me que ainda se aguentava este ano. Ensaiei vesti-la...
... E o que aconteceu? Resposta: o quarto botão a contar de cima hesitou antes de aceitar ser abotoado. Mostrou-me que eu tinha mudado de formato, ainda que houvesse a muita vaga hipótese da camisa ter encolhido na última lavagem.
Não tinha encolhido, claro. Eu é que tinha mudado. Nem mais alto, nem mais baixo. Nem mais gordo, nem mais magro. Mas – isso sim, novidade... - com um pneu à volta do estômago. Em rigor: “uma barriga”. Algo que de há uns anos a esta parte me cercava, andava a dar sinais, mas que neste primeiro ano sem fumar se instalou dramaticamente, sem dó nem piedade, e sem pedir licença. Chegou, viu e venceu.
A minha primeira reacção foi de pânico. Depois, medo. Por fim, pavor. Os artigos de jornal e revista sobre barrigas parecem vindos do outro mundo – associam esta inusitada bóia a mortes de toda a espécie, ao colesterol, ao coração. Depois, o culto do corpo e da eterna juventude, associado ao excelente marketing das clínicas de estética, ginásios e mesas de operações plásticas, fazem de qualquer quarentão um potencial deprimido crónico. Por fim, os suaves comentários dos que nos rodeiam... “Deixaste de fumar? Logo vi, estás mais cheiinho...”; “estás com óptimo ar, eras tão magro...”.
... Tudo muito animador. Especialmente quando o tempo escasseia para contornar o problema. Depois de uns dias tristes, apenas consolado pela M., que simpaticamente tentava encontrar vantagens (de que o efeito almofada era o menos tentador...) onde eu só via prejuízos, decidi olhar-me no espelho maior cá de casa. E tive uma surpresa: gostei do que vi. Gosto da minha barriga... Acho-a elegante, simpática, amiga. Não ocupa demasiado espaço. Tem bastante arrumação. Aguenta com os fatos e os casacos existentes.
Na verdade, não gosto da barriga dos outros, não gosto dos excessos alheios. Mas do meu... gosto. Ora, foi nesse instante que eu descobri que se nos entretermos a olhar a barriga dos outros e não perdermos tempo com a nossa, tudo é mais simples e claro: eles não estão nada bem – e enquanto tal sucede, não pensamos em nós nem sabemos, em rigor, a que estado chegámos.
O segredo é só este: olhemos a barriga dos outros, nunca a nossa. Ataquemos sem dó nem piedade os pratos que mais nos agradam e as bebidas que nos enchem as medidas. Vivamos sem medo nem vaidade. Ignoremos o espelho e os olhares menos simpáticos de quem nos cerca – e olhemos os outros e as suas misérias com implacável severidade. Na santa ignorância, temos meio caminho andado para umas férias tranquilas. Para o ano logo se vê. Aí está o pleno do Inverno...
(Ao sábado, aqui no blog, memórias. Este foi um texto publicado na “Lux Woman”, onde mensalmente me tratam com carinho. Editado agora. Nem sei de que barriga fala...)

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