Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pedro Rolo Duarte

21
Jun08

O saber do pão, o sabor do pão

 

“Basta referir-me ao pão. Vidigueira? Torrão? Bons pães, não duvido; mas como milhares de outros. Depois do peixe e do Diogo Rosado, a maior riqueza de Portugal é o pão. Custa-me que a magnificência da panificação portuguesa seja tão pouco laureada. O pão de Pernes, conhecem? Não faz mal, é tão bom como o de Martim Longo ou de Beja ou, ou, ou, ou. Os portugueses parecem-me tão competentes a fazer pão que até o "Pão Alentejano" da Casa Xandite da Costa da Caparica consegue ser estupendamente aceitável. Sempre me fez espécie” – encontro isto no blog de Maradona e risco mais uma linha da Filofax na secção “temas para posts”. Era o pão, claro. Era o regresso do pão a Lisboa.

Não sei se deram conta, mas o pão – o preferido de todos os alimentos que amo – sofreu o seu bocado nos anos 80 e 90, com as máquinas industriais nas padarias, a degradação da “carcaça”, e o inacabado debate sobre o “que faz mal” e o “que faz bem”. Parecia “bem” não comer pão – no que terá sido a mais estapafúrdia regra não escrita da sociedadezinha lisboeta. Lembrava-me sempre do meu pai a virar o bico dos olhos dos empregados dos restaurantes chineses, perguntando alegremente: “e pãozinho, não se arranja?”.

Por fim mudou o século, e com a mudança (coincidência, certamente), além das “Casinhas do Pão”, que já havia antes, e de uma padaria ali na Pascoal de Melo, cujo nome não me ocorre agora, e da Madrilena na Av. de Madrid - dizia eu, além desses oásis, os outros comerciantes perceberam que os lisboetas gostavam de voltar a ter pão como deve ser. Da Encarnação de Mafra. Das Pereiras de Monchique. De Azeitão. De Sesimbra. De longe. Ou de perto. Mas bom. Aos poucos, os supermercados começaram a abrir espaço para o pão “importado” de fora de Lisboa – e a coisa democratizou-se rapidamente, até mesmo nas padarias clássicas, que em muitos casos se converteram à diversidade. Não é só no Corte Inglês que há pão português outra vez, é no Pingo Doce, e no Continente, e no Modelo, e em quase todo o lado. Alguns restaurantes mais inteligentes também já tratam o pão com a delicadeza e a atenção que dedicam à fruta, separando o trigo do joio. Literalmente.

Na verdade, eu ainda continuo a duvidar das entregas e dos stocks (quando fui a Beja, há poucas semanas, não voltei para Lisboa sem antes comprar dois pães de quilo que me pareceram, e eram, legítimos...). Pareço o maluquinho do pão, sempre em excesso, sempre a transbordar, e sempre a dizer: “tenho de comprar pão...”.

Mas o pior não é isso. O pior é que nunca mais encontrei pão tão bom como aquele que me alimentou parte da vida durante quase 20 anos, directamente da única padaria da Zambujeira do Mar. Pão que cheguei a ter de reservar, porque “no Inverno acaba, que somos poucos”, e “no Verão acaba, que somos muitos”. Palavra da padeira. À porta daquela casa rasteira onde só a enorme chaminé antecipa o melhor, está quase sempre um carro de mão com lenha. E aquela imagem da porta castanha e do carro com a lenha parece que derrete manteiga...

Quem conhece a terra sabe do que falo – mas saberá também que os próprios locais compram pão das Pereiras e de outras localidades. Não é unânime a qualidade do pão da Zambujeira. Mas para mim é. O pão. O pão. O pão. Com manteiga. Sanduíche. Para açorda. Para torradas. Ao acordar. Antes de dormir. A qualquer hora.

O Maradona lixou-me o post e a noite. Umas fatias de pão de Mafra, está bem, mas não é a mesma coisa. Até o queijo perde sabor. É do que sinto mais falta quando penso na falta que me faz aquele bocado do meu passado.

12 comentários

Comentar post

Pág. 1/2

Blog da semana

Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2007
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D