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Pedro Rolo Duarte

08
Jul08

O fogo português

Concordo com Maria João Pires quando escreveu que «a “blogosfera” também serve para armazém e recuperador de memórias». Por isso, fiz “copy-paste” da crónica de Miguel Esteves Cardoso que Maria João recuperou ontem no blog 5 Dias. Ao fazê-lo, estou a ampliar e “espalhar” um texto notável, estou a pôr-me humildemente ao lado das suas palavras, mas acima de tudo penso na razão que, 20 anos depois, o Miguel continua a ter:

 

“Onde será o próximo incêndio? Em que bairro, em que cidade, com que consequências? Uma catástrofe é mais violenta quando se compreende que se poderia prever e que se poderá repetir. Quem viu o Chiado a arder viu também arder, na sua imaginação incrédula, Lisboa inteira.

Há um fogo português - fogo da incúria, da incompetência, da incompreensão - que arde sem se ver. Está a arder agora. E continuará a arder mesmo depois de ter sido apagada a última chama nas ruas da Baixa. À parte um ou outro espírito avisado (e avisador) que inevitavelmente passa por maluco ou maçador, todos temos culpa nesse fogo. E quanto mais culpa mais pena. É essa a tragédia portuguesa.

Deve chorar-se o que se perdeu e nunca mais se terá. Mas deve dar-se às lágrimas um sentido. O sentido certo é o da raiva. O sentido certo é uma determinação de não deixar acontecer desastres destes outra vez. É claro que se deve reparar, indemnizar, reconstruir. Temos, felizmente, um exemplo para nos guiar - a gloriosa reacção ao terramoto de Ponta Delgada.

Mas a reconstrução é uma gota do que se tem para fazer. Ficando por aí estaremos apenas a tapar mais um buraco. É coisa para que sempre tivemos apetência e jeito. Não nos podemos satisfazer com isso. Isso equivaleria a esperar pelo próximo incêndio. E quem espera um desastre quase que o merece.

Quando o presidente da Câmara de Lisboa, com uma grandiloquência deslocada e copiada, disse «A vida continua», apetece responder que aí está, precisamente o mal. A grande catástrofe é continuar como continuamos, sem cuidar das nossas coisas, das coisas que temos presentes, sem temer por elas, sem precavê-las contra o tempo e os homens, amando-as simplesmente. O amor é muito bonito mas não chega para nada. Só serve para chorarmos mais quando as coisas que amávamos se destroem ou desaparecem.

O espírito da nossa idade - de que a Câmara de Lisboa é aprendiz de representante - é desenvolvimentista e moderno, por um lado, e museológico e retrógrado, por outro. A novidade-só-pela-novidade é venerada, de um lado, e a velharia, debaixo da vitrina, devidamente conservada, por outro. Ambas estão devidamente protegidas do fogo. O espírito da nossa idade só não liga àquilo que realmente importa - ao património vivo, à verdadeira cultura que está presente.

Os dois instintos basbaques - de adoração da relíquia e do “gadget” - consolam-se e completam-se no mais pacóvio dos provincianismos. E assim se esquece o presente, as casas onde as pessoas vivas moram e trabalham, a cidade viva que precisa de ser mais estimulada e protegida.

O sentido das lágrimas só pode ser prático e preventivo, por um lado, ético e cultural, pelo outro. A passividade é um pouco como a palha do fogo posto. Convida à faísca. O esforço tem de ser nacional. Não é hora para criar divisões, atribuindo culpas com rancor ou leviandade. Há uma atitude, profundamente enraizada na nossa cultura, que é preciso mudar. Mais trágico que qualquer flagelo é o modo como aceitamos as tragédias. Como se fossem naturais.

Quando não são. Apagar fogos e reconstruir é muito mais fácil. É essa, afinal, a catástrofe”.

 
A crónica do Miguel chamava-se “O fogo que arde sem se ver”, foi publicada n’O Independente na edição especial dedicada ao incêndio do Chiado. Eu era, à época, jornalista do Indy e também colaborei nesse número especial.

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