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Pedro Rolo Duarte

12
Jul08

Outra vez aquela capa...

  Voltemos à capa da Rolling Stone (a propósito: o texto da entrevista foi publicado esta semana em Portugal pela “Sábado” ). Pode ser “patético” o meu entusiasmo por este momento, pode ser esquisito ver naquela capa um manual de design. Ainda assim, eu insisto. Ou talvez por causa disso...

  A “Rolling Stone” foi uma das mais influentes revistas na cultura pop norte-americana - e por essa via, também na Europa... -, nas décadas de 60 e 70. Mantém hoje, mesmo depois de uma década de 90 menos vibrante, uma vitalidade e um dinamismo incomuns, tanto mais que insiste numa fórmula híbrida entre a actualidade politica & social e a música pop – fórmula que, à luz dos interesses que se detectam nos consumidores de imprensa (maior especialização, revistas muito focadas em temáticas próprias), estaria em perda.

Pode estar. Mas a “RS” continua a ser uma referência e um ícone, e não são indiferentes as suas opções editoriais. Nas suas páginas há frequentemente espaço para o jornalismo de investigação, cada vez mais raro no mundo da comunicação, para a reportagem, e continuam a ser de luxo os nomes que assinam na revista. Ainda há poucos anos P. J. O’Rourke era um dos seus “editor at large”, espécie de “quando me dá na bolha, faço uma reportagem genial”...

Ora, a escolha de Obama para capa de uma edição, com a respectiva entrevista do editor Jann Wenner, segue a normalidade da agenda regular da “casa”. Até aí tudo bem. O que é fora do comum, raro, e por isso releva para o design a partir de uma opção editorial, é a capa não ter uma única palavra, titulo ou texto, para lá do logótipo. Dei-me ao trabalho de consultar livros com as capas da revista desde 1967, e só encontrei semelhante atitude na famosíssima capa com Yoko Ono e John Lennon (que aqui reproduzo). Mesmo nesse caso, o logótipo “Rolling Stone” sobrepõe-se à fotografia, coisa que desta vez, com o candidato americano, não sucede.

Ou seja: face à feliz expressão de Obama, à sua pose a um tempo divertida e politicamente correcta, ao emblema na lapela, a toda um construção que nos oferece um líder nato, porém próximo, um vencedor sem arrogância, um homem que a foto revela não ter nada a esconder, a revista dá-lhe toda a relevância que pode. Manifesta assim o seu apoio politico e “cala-se” perante a força da imagem do candidato: limpa da capa títulos, outros destaques e chamadas, qualquer espécie de poluição visual, e até o logótipo é discretamente remetido para “os fundos” da página. Como se nada mais interessasse, como se tudo o mais que a revista publica nesta edição fosse dispensável...

Quando o design serve uma causa e se reduz à expressão mais simples, que pode mesmo ser a sua aparente inexistência, estamos próximos da genialidade. Dá muito trabalho chegar a esta patamar de simplicidade e eficácia.

Era isso que eu queria dizer.
 

PS - Deixo-vos abaixo mais algumas capas da “RS” no seu registo normal, para compor o ramalhete e se poder ver a diferença...

 

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