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Pedro Rolo Duarte

14
Jul08

Modos de viver

Há dias gravei uma conversa com a Laurinda Alves para o programa da Antena 1, que passou ontem de manhã no rádio. Conhecemo-nos há muitos anos, partilhámos alguns momentos bons da vida (por exemplo, o raid de jornalistas em Marrocos organizado pelo MST), e cruzámo-nos aqui e ali profissionalmente. Entre nós ficou algo a meio caminho entre o respeito e a amizade, e a sensação de que, em rumos muitas vezes divergentes ou mesmo opostos, temos percursos e saberes semelhantes. Curiosamente, neste encontro profissional verificámos isso mesmo, quando de repente estávamos a perguntar um ao outro pormenores, lógicas e até questões técnicas sobre os blogs de cada um...

Depois, de microfone fechado, demos connosco a interrogarmo-nos sobre a pulsão que leva algumas pessoas, de vez em quando, a insultarem-se e ofenderem-se de forma gratuita no mundo dos blogues...

Ambos somos vítimas, pontualmente, desses ódios exacerbados, de qualquer coisa violentíssima que parece ser vingança, ou ressabiamento, ou ambos. O problema não está no insulto em si, que faz parte da vida no engarrafamento automóvel, entre colegas de escola, ou num momento mais aceso de uma discussão – está na lógica de confronto sem causa aparente. Uma espécie de “agarra-me senão eu vou-me a ele - e não é que vou mesmo?”. Aqui ninguém agarra quem quer que seja, no que constitui valor acrescentado da rede – mas também por isso, tudo se revela de forma mais crua e despida de qualquer lógica, nexo, enquadramento.

Na semana que passou a Laurinda foi alvo de um desses posts sem tom nem som, feitos de insulto descabido e consecutivo, como se a sua existência incomodasse a existência de outro. Não se tratava de crítica nem de argumentação, nem sequer de uma apreciação de carácter profissional. Era só insulto. E ficámos os dois a pensar no absurdo da coisa. Sem conclusões maiores do que esta: poupa-se muito dinheiro no psicanalista e na farmácia depois de usar a rede, e quem nela abre chafarica, como saco de boxe. Isso é incontornável – e se for por essa boa causa, que venha o insulto, sempre sentimos que somos úteis a quem está doente. Desconfio, no entanto, e sinceramente, que um post assim, vindo do nada e para nada servindo, não amenize o eventualmente sofrimento do seu autor para com a vida. Ou seja, se calhar nem serve para substituir a consulta psicoterapêutica e cumprir a missão “saco de boxe” do dia...

Nesse enquadramento, consigo perceber melhor um tiroteio na Quinta da Fonte. Tem razões objectivas. Tem uma finalidade. Tem um antes e um depois. E tem também um enquadramento jurídico. A vantagem da rede é que a sua liberdade, sendo caótica e vagamente enlouquecida, não faz mal a ninguém – e o mesmo não se pode dizer da segurança que ao Estado cumpre garantir-nos na Quinta da Fonte ou no Palácio de São Bento. Mas isto já sou eu a divagar...

... Bom, a conversa com a Laurinda foi muito boa. E uma vez mais reencontrei-me com esta ideia, que a nossa relação de alguma forma demonstra: o que nos aproxima ou nos afasta, não é tanto o que pensamos – mas antes o modo como pensamos. No fundo, não é tanto o que vivemos – mas o nosso modo de viver.

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Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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