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Pedro Rolo Duarte

19
Jul08

A terceira via

 

A avaliar pela imprensa de ontem, parece que há um “duelo de titãs” marcado para este fim-de-semana na zona de Lisboa. De um lado, Bob Dylan. Do outro, Leonard Cohen.

Ok. Como raramente me sucede tal facto, devo assinalá-lo: fui pela terceira via. Nem Dylan, que não consegue mais do que o bocejo e a memória de aprender a tocar viola com o “Blowing in the Winds”, nem Cohen, ao som do qual namorei em Cascais há milhares de anos (e nem sequer correu muito bem...). Tem razão o leitor Alexandre, que me corrigiu: o duelo era com Lou Reed, de quem até gosto bastante, e estava na capa do Público direitinho e com rigor. Mas como Dylan tocou em Lisboa na semana passada, e eu escrevi o post a desoras, baralhei tudo. É a PDI, se me faço entender...

Terceira via, portanto.

Esta: ontem no Coliseu, com Milton Nascimento e o Trio Jobim (na verdade composto por quatro elementos, mas tudo bem, acordo ortográfico, coisas que acontecem...). Derreti-me com as consecutivas homenagens ao pai da Bossa Nova, com o regresso da voz de Milton a temas antigos, dos tempos de Wayne Shorter e Herbie Hancock, e com a comoção de ver o Bituca de boa saúde depois do susto de há uns anos (uma qualquer forma de diabetes rapidamente “boatada” para outras doenças).

Percebi, uma vez mais, que volto sempre às canções “onde” fui feliz. Milton tem uma generosa dose delas – dos tempos de “Courage” aos das duplas com Paul Simon e os “Duran Duran” (sim!), passando pelos temas partilhados em discos diferidos com Elis Regina ou ao monumental “Sueño Con Serpientes” com Mercedes Sosa. Sem deixar de passar pela “casa de partida” que são, para os admiradores incondicionais, os duplos “Milagre dos Peixes” e “Clube de Esquina”.

Os discos de Milton foram os meus mais fiéis e leais companheiros de juventude – mesmo no frenético tempo em que a adolescência nos obriga a mudar de gostos e paixões todos os dias... – porque conjugaram sempre uma sólida construção musical, original, fora do comum, ligando o jazz à MPB, com textos que me diziam qualquer coisa, nem que fosse um amor perdido ou recuperado.

Voltar ao Coliseu e voltar a Milton foi tudo isso. Ou apenas isso.

São memórias tantas, e tantos acordes que me acordam para o essencial da vida. Que é apenas, e afinal, viver. Estupidamente simples...

... Como este tema brilhante de Milton e Fernando Brand que levantou por fim o Coliseu:

 

“Foi nos bailes da vida, ou num bar em troca de pão
Que muita gente boa pôs o pé na profissão
De tocar um instrumento e de cantar
Não importando se quem pagou quis ouvir, foi assim
Cantar era buscar o caminho que vai dar no sol
Tenho comigo as lembranças do que eu era
Para cantar nada era longe, tudo tão bom
'Té a estrada de terra na boleia de caminhão, era sim
Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão
Todo artista tem de ir aonde o povo está
Se foi assim, assim será
Cantando me disfarço e não me canso de viver nem de cantar”
 
... É isso: “Para cantar nada era longe, tudo tão bom”.

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