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Segunda-feira, 21 de Julho de 2008

 

No auge da minha paixão pela Costa Alentejana, mais precisamente pela Zambujeira do Mar e “ilhas” adjacentes, tive longas discussões com os proprietários dos cafés e restaurantes que frequentava. Eles acusavam-me – a mim e a mais uns tantos maduros... – de querermos aquele paraíso só para nós...

Eles, comerciantes, queriam a Zambujeira “para todos”, por isso aplaudiam o Festival do Sudoeste em pleno Agosto, por isso cediam às cadeiras foleiras e aos chapéus-de-sol das marcas de cerveja (aquele largo da aldeia, no Verão, parece um verdadeiro supermercado de marcas e cores, um monumento de poluição visual), por isso faziam sanduíches de mau fiambre e pior queijo, e maus sumos (laranja e já era obra...) e fritavam batatas congeladas e vendiam chouriços industriais...

A minha argumentação era sempre a mesma: se eles cultivassem qualidade, iriam ter qualidade de retorno. Isso significava clientes fiéis, dispostos a pagar o justo preço da qualidade, menos instáveis mesmo em momentos de crise. Eu só queria que a Zambujeira fosse autêntica como há 20 anos, e não plástica e massificada, como se estava a tornar.

A argumentação deles era clássica: só temos o Verão para facturar, mais vale imperial a rodos em copos de plástico durante 3 dias de festa. O futuro que se dane.

“Eles” ganharam – e depois de darem cabo do melhor bar de praia do país (ler a história aqui ) , e por consequência da própria praia, e depois de arrasarem com o mês de Agosto a golpes de festival e quartos alugados em garagens de automóveis, e depois da conversa de sempre – “no Inverno esgotam os jornais, porque somos poucos; no Verão esgotam os jornais, porque somos muitos” -, desisti: despachei a casa e larguei a Zambujeira (como eu, a maioria dos veraneantes que conheci nestas décadas). Voltei a viajar e a ter a capacidade de descobrir outros paraísos.

Por tudo isto que aqui desabafo, não me surpreendeu a reportagem de Carlos Dias no “Público” de ontem. Infelizmente. O texto sustenta-se na teoria da crise – mas na verdade, a questão é mais vasta e tem outras cambiantes: tivesse aquela população percebido o valor e a importância de um turismo de qualidade (que ali se dispôs a aportar sem pedir em troca mais do que autenticidade e paz...), e a crise suportava-se hoje bem melhor. Como aquela gente preferiu o lucro rápido e imediato nos anos loucos da “expansão”, agora “é assim”:

“É uma sensação estranha atravessar de automóvel, em plena época balnear, as localidades costeiras do litoral alentejano de Azenha do Mar, Zambujeira do Mar, Almograve, Porto Covo ou São Torpes. As viaturas circulam sem estarem sujeitas a qualquer congestionamento de tráfego e até se consegue estacionar, logo à primeira, e em qualquer lugar. Nas praias da Zambujeira do Mar e Porto Covo, uma dúzia de chapéus de praia dispersam-se pelo areal que parece imenso, comparando-o com anos anteriores, quando os banhistas disputavam uma nesga de espaço para estender a toalha.
Nas esplanadas abundam as cadeiras e mesas vazias ponteadas por meia dúzia de pessoas à volta de um pequeno prato com salada de polvo que cavaqueiam sobre o seu aborrecimento e consternação por tão fraco afluxo de turistas”.

(...)
“A escassez de veraneantes estende-se inevitavelmente aos estabelecimentos de restauração. No snack-bar O Martinho com uma excelente panorâmica para a praia da Zambujeira do Mar, a clientela "é fraca" e "pouco endinheirada", diz António Lopes. Com efeito, as escolhas dão preferência ao frango no churrasco com batata frita. Pedidos de peixe, "apenas pratos de sardinha de vez em quando" ou então "um peixito para sete pessoas para ficar mais barato". Há três anos, a clientela era muita e "até aceitava esperar pelo peixe que vinha da lota". Este ano é tão pouca que "nem dá para aquecer", apesar do calor”.


publicado por PRD às 16:56
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15 comentários:
Pedro:
Juro-te que não foi plágio, mas o tema de um dos mesus posts de hoje é precisamete "O fim do mito aentejano". diz a MRP que nõ há coincidências.Então nã há?
Abraço

deixado em 21/7/08 às 17:26
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Alentejano
O "mito alentejano" só existiu para quem não tem de cá viver em permanência; por cá não se evolui, nada se aprende a não ser a embrutecer (alguns nascem, crescem e morrem brutos; esses são os que acham que o Alentejo é o melhor sítio do mundo para viver porque não conhecem mais nada!) alegremente ou a andar em permanente estado de ansiedade e depressão suspirando pelo fim de semana, pelas féria, enfim por uma escapadinha para sítios com mentes mais arejadas sendo que, no final desses ansiados dias de liberdade, se volta a casa a contra-gosto.
É que, por cá, é impossível ter ma vida civilizada, ter uma conversa civilizada, dar um passeio, ir a um bom restaurante, a um cinema, teatro, fazer compras (porque não?), enfim ... VIVER.
Existe demasiada mesquinhez, demasiados ódios e invejas e pouca oportunidade de amizades verdadeiras.

deixado em 21/7/08 às 18:48
responder a comentário | discussão

E assim se desmonta o mito Bíblico de ter sido Deus a expulsar os primeiros Homens do Paraíso.
Não foi Deus, ele ainda não tinha sido inventado.
Foram os próprios Homens que só se deram conta de que era o Paraíso o sitio onde tinham estado quando - após terem devorado todos os frutos, todas as sementes e todas as árvores do mesmo - se deram conta do que tinham acabado de perder.
Então, isolados perante o deserto e do seu próprio vazio, e numa ânsia de o preencher com algo, fizeram nascer essa coisa que sendo deles é sempre alheia a que chamaram de Culpa.

deixado em 6/8/08 às 18:25
responder a comentário | início da discussão

O "Martinho" agora queixa-se. é o que dá abusar dos clientes enfiando na conta mais duas ou três imperiais, mais um ou dois cestos de pão. Uma pratica muito comum em varias casas da Zambujeira e que tem no "Martinho" o seu expoente maximo.

deixado em 21/7/08 às 18:55
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Apesar de já não ir à Zambujeira há meia dúzia de anos, passei lá férias quase todos os anos desde o início dos anos 80, quando nem sequer sabia andar. Recordo-me perfeitamente de ser um local praticamente desconhecido em Lisboa, que só era descoberto pelo "passa palavra", mantendo um traço de construção tipicamente alentejano, o que fazia com que, quem lá fosse uma vez, de certeza que lá voltaria, face ao seu carácter genuíno. Recordo-me, por exemplo, de o correio ser entregue no "Rita". Ao ponto de, ao longo dos anos, lá aparecerem quase sempre as mesmas caras na mesma altura do ano (inclusivamente muitas figuras públicas, como o Miguel Esteves Cardoso), que alugavam sempre as mesmas casas e se dispunham nos mesmos locais da praia. E acredite que eram pessoas dispostas a abdicar de águas mais quentes do Algarve e que usufruíam do comércio e restauração do local e até nos arredores, como o célebre "Sacas" na Entrada da Barra.

Assim foi durante os anos 80 e parte dos anos 90. A partir daí (a realização do festival deu uma ajuda), a necessidade de fazer cada vez mais dinheiro à conta do turismo (sobretudo quem aluga casas e os donos de restaurantes), ajudou a desvirtuar o local. Quem lá ia antes certamente chegou à conclusão de que não havia assim tantas diferenças entre a Zambujeira e outros locais no país, certamente ter-se-à alterado o paradigma de pessoas que iam para lá de férias.

deixado em 21/7/08 às 20:14
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Ao longo de anos e anos, todos os anos os comerciantes dizem sempre que o negócio está pior.
Nunca ouvi dizer o contrário!

deixado em 21/7/08 às 22:42
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Só posso concordar com o Pedro; de resto, é por causa de certo tipo de argumentos, de certo tipo de "comerciantes", que o planeta Terra está como está! E a verdade é que o planeta são muitas Zambujeiras do Mar; o que se faz a estas, reflete-se naquele.

deixado em 21/7/08 às 23:26
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ig
Os meus filhos acabaram de chegar de Porto Covo onde estiveram uma semana com os avós. Diz a minha mãe que aquilo por lá estava um bocado «morto». Fui ter com eles a Alcácer do Sal onde almoçámos num restaurante perto da Câmara Municipal, com vista para o rio. Pela conversa do empregado parece que o negócio por aqueles lados, leia-se ali mesmo no centro de Alcácer, não está muito mau. Será que a Comporta (um pouco na moda agora, com os seus dois simpáticos bares/restaurantes com bom acesso e boas infrastruturas) tem ajudado a fornecer mais alguns clientes? Ou será que as pessoas já se aperceberam onde NÃO devem meter os pés?
P.S. Veremos o que vai surgir em Tróia, pelo menos as obras lá continuam...

Ainda sobre o modesto restaurante: Não fui lá para comer peixe mas mesmo assim o empregado teve o cuidado de relembrar que era segunda-feira e por isso só serviam bacalhau. Comi migas com carne de porco frita que era o que saltava mais à vista, claro!

deixado em 22/7/08 às 00:32
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QWERTY
É ao que normalmente se resume o planeamento turístico de muitas entidades e autarquias: faz-se umas festas para vender uma imperiais. Desenvolvimento sustentado, nicles.

deixado em 22/7/08 às 14:33
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Pois. A questão é mesmo essa. o que pretendemos afinal? Ter uns locais (pode muito ser o litoral alentejano) que mantenham o modo de vida (e riqueza) que tinham quando éramos moços ou um País que vai crescendo de forma harmonizada? Entendo a questão de marketing colocada sobre 'se quero qualidade tenho de dar qualidade' mas a questão é sempre qual o segmento de mercado que quero atingir e que pode não ser aquele que outros acham que deve ser atingido.
Não podemos é 'condenar' uma, ou mais, geração ao subdesenvolvimento porque achamos que, quem vive nas grandes cidade, deve ter o direito de ver o País como ele era há 50 anos atrás, nem que seja para mostrar aos filhos o atraso em que vivemos.

deixado em 23/7/08 às 00:53
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paula
Digo mais, Pedro! Àa vezes, ter razão é DOLOROSO. Vale, apesar de tudo, o descanço que é estarmos em paz com a nossa verdade. E sem guerras( ou até com as que nos quiserem fazer ).
Saberás que não me refiro ao "teu" Alentejo, que nunca conheci...mas sim à vida.
E por favor não deixes nunca de ter a tua razão! Mesmo que muitos impliquem com ela.
Beijo.

deixado em 23/7/08 às 02:40
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