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Pedro Rolo Duarte

26
Jul08

A sociedade numérica

Na passagem do 25º aniversário, a revista francesa «Le Point» vem lembrar-nos uma contradição terrível: no mesmo mundo em que a comunicação é a chave-mestra dos dias, as palavras valem menos do que os números. Vivemos cercados de números – que nos limitam, nos asfixiam, nos condicionam, e no limite nos lixam...

Como que provando tal ideia, todo o suplemento de aniversário da revista é constituído por números: um dia de França em estatísticas, sondagens, levantamentos, valores monetários, pesos e medidas. São páginas e páginas de infografias e análises – tudo com base em números. O resultado é assustador: desaparece o indivíduo e no seu lugar apenas existe o grupo. E o grupo só existe se for representativo, quer dizer, se a soma dos seus elementos chegar ao patamar mínimo considerado pelo «desenho» ou pelo critério de cada artigo. Não há mais nada a não ser números – e o único que fixei é aquele que diz que o cérebro humano toma em média cinco mil decisões por dia. Que canseira, meu deus...

Olho à volta e é assustadora a paisagem. Um fim-de-semana prolongado ou um final de férias traduz-se, na informação, pelo número de acidentes, mortos e feridos. Um dia nacional de qualquer doença é apoiado pela estatística: um em cada não sei quantos portugueses padece de... Os partidos, os líderes, os governantes, são vistos pelos media através de painéis onde «sobem» e «descem» de popularidade ou agrado. Um artista é contabilizado pelos discos de ouro e platina, numa aritmética que resulta da compra e não do agrado. Não falando dos livros, e das vendas dos jornais…

Depois há os índices que todas as discussões provocam: os dois virgula qualquer coisinha por cento de aumento que a função pública não quer, os menos que zero da inflação, os valores da bolsa, e a taxa de juros, e o preço das acções. Há os números com que nos identificam e que nos denunciam e condenam, há o «preço do dinheiro» e a obsessão galopante do consumo. Há «dos zero aos cem em 6 segundos», há as garantias de 36 meses, há o «esta semana no Pingo Doce» e o preço do novilho, há as manchetes que revelam dívidas de milhões, falências de milhares, desemprego em «números redondos». Um secretário de estado demite-se por falta de verba, um ministro orgulha-se dos milhões que gastou.

Chego ao fim do dia e o que resta de tudo o que passou são números. Ou são trocos, já nem sei. Cansado, nem me apercebo de que, entre tantos por cento, sou um deles. Muitos zeros virgula qualquer coisa.

As palavras e os argumentos não fazem falta nenhuma: se tivermos números, eles explicam tudo.

 

De vez em quando, memórias revistas e editadas. Publiquei esta crónica, na sua versão original, em Outubro de 1997 na revista Visão.

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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