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Pedro Rolo Duarte

28
Jul08

Impunidades (parte III)

A respeito deste post e dos comentários menos elegantes que ali se encontram, devo acrescentar ao que escrevi os seguintes pontos:

1. Ao contrário do que determina a convicção de Gonçalo Amaral (e de alguns dos autores dos comentários ao meu texto), recuso fazer julgamentos prévios, e na praça pública, sobre factos que não testemunhei e sobre os quais não tenho dados suficientes que me permitam sequer ter uma opinião. Ou seja: não faço a mais pequena ideia se a “pequena Maddie” foi raptada ou morta, e se os pais têm qualquer relação com os factos. Nem eu, nem o ex-inspector Gonçalo Amaral – porque se efectivamente soubesse e pudesse provar, há muito este caso estava a ser julgado.

2. “Caso em aberto” - é esta a situação, e daqui deve decorrer a atitude de qualquer comentador ou jornalista. Se os leitores deste blog puderem provar qualquer tese sobre o desaparecimento da criança, ou puderem provar que a convicção de Gonçalo Amaral tem sustentação factual, a justiça, os jornais e o mundo agradecem.

2. Critiquei e critico o livro do ex-inspector Gonçalo Amaral – do qual li as passagens essenciais para poder manifestar esta opinião – apenas pelo facto de misturar as suas convicções pessoais com presumíveis indícios, manipulando esses mesmos indícios a seu bel-prazer, num processo de julgamento público que reputo de pouco sério. Aprecio o facto de se ter reformado porque não quero que a Policia portuguesa tenha nos seus quadros elementos que admitem validar o julgamento na praça pública com base em convicções pessoais. 

3. O arquivamento do processo Maddie resulta justamente do facto de não terem sido encontrados indícios suficientes para manter arguidos os pais da criança – ora, isto não significa que eles sejam inocentes, significa apenas que não há matéria que permita mantê-los na qualidade de arguidos. O livro de Gonçalo Amaral não adianta um dado que seja (cientifico, factual, rigoroso) que altere esta linha de actuação.

4. Assim sendo, as convicções de Gonçalo Amaral constituem um momento penoso para a polícia portuguesa – porque consubstanciam a ideia de que uma convicção forte, acompanhada de uma manipulação mais ou menos inteligente dos factos, chegam para incriminar alguém. Desejo sinceramente que nunca os comentadores de serviço ao meu post passem pela mesma situação – não vá ocorrer-lhes o mesmo que ao toxicodependente espanhol que esteve 13 anos preso por engano dado o facto de ser estrábico como o efectivo criminoso que andou à solta até agora (noticia no mesmo Correio da Manhã de ontem onde o infalível e inefável Moita Flores volta a defender a tese do crime familiar, como se a vida das pessoas fosse um jogo de apostas...).

5. Desde o começo deste caso que me revoltam e me inquietam as “opiniões públicas” feitas por “palpite”: “foram os pais de certeza, vê-se logo...”; “já o teu cunhado sempre disse que eles eram os culpados”; “não, coitados, de certeza não foram eles...”. A imagem é fatal e vivemos o tempo em que ela é o tribunal popular: vê-se a tromba do presumível criminoso na TV e logo se diz: “tem mesmo cara disso...”. Ou o contrário. As pessoas gostam de dizer coisas, acreditar em coisas. Que o façam dentro de casa, problema delas – brincam com a vida dos outros, apenas... Que o façam em livro, nas televisões, em entrevistas e debates, tendo um passado de responsabilidade e envolvimento, misturando alegremente palpites com indícios, e apostas com provas, parece-me, além de perigoso, rasca, reles e pobre.

Foi só isto que eu quis dizer. Não represento nenhuma das “partes”, não estive envolvido na cobertura noticiosa dos factos, de momento nem sequer tenho “carteira profissional” de jornalista. Limitei-me a expressar uma opinião sustentada no código deontológico que rege a minha vida. E esse código impede-me de queimar na fogueira da praça pública aqueles que o meu “achismo” me diz qualquer coisa como... “cheira-me que são culpados!”

Fica a notícia do tal estrábico espanhol no Correio da Manhã, para alimentar a fogueira...

 

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