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Pedro Rolo Duarte

30
Jul08

850 dias depois...

“Lendo o seu livro, apercebi-me que deve ter deixado de fumar, se não teve alguma recaída, há dois anos, mais ou menos. Gostava de saber o que sente ainda hoje, se sente, se pensa no tabaquinho ou se é daqueles fundamentalistas que odeiam fumadores...”

 


Comecei a responder ao mail deste leitor, mas às tantas admiti que a resposta pudesse servir a mais pessoas, a mais fumadores, ex-fumadores, curiosos ou interessados pelo tema. Por isso, partilho o essencial da resposta que dei por mail:

 

 

 

Primeiro, as más notícias...

Dois anos e três meses depois, cerca de 850 dias mais tarde, este fumador de três maços diários que decidiu privar-se dos cigarros (e por isso não se sente ex-fumador, apenas uma pessoa que se impediu a si própria de continuar a fumar), continua intoxicado pelo tabaco porque:

- Em cada dez sonhos de que se lembra na manhã seguinte, oito envolvem cigarros, regressos e recaídas, mentiras que escondem recaídas, e passas cheias de prazer em ocasiões quase sempre convidativas.

- Ao longo do dia, nas ocasiões mais disparatas (além das óbvias, que são sempre o café, o final da refeição, o whisky pela noite...), este fumador sente ainda que lhe falta qualquer coisa. Como se lhe tivessem amputado uma parte de si, que não sendo essencial à existência, com frequência faz sentir a sua própria ausência.

- Da mesma forma, com desmedida regularidade e método, há um sentimento ansioso que obriga a uma respiração funda, a uma espécie de pausa no correr do tempo. Como se de vez em quando fosse essencial parar para recomeçar.

- Engorda-se quando se deixa de fumar. Parece que é mais ou menos o mesmo que estar habituado a correr 4 quilómetros por dia e parar de correr de um dia para o outro... Neste caso, dez quilos.

- Por fim, não raras vezes o ex-fumador que tenta nascer dentro do fumador observa este ultimo com um olhar nostálgico quando outras pessoas fumam cigarros e revelam na atitude o prazer que constitui fumar um cigarro.

 
Mas...
Depois, as boas notícias...

Dois anos e três meses depois, sempre que penso em tudo aquilo que abandonei (pior agora, com a recente legislação), experimento uma sensação de liberdade única: deixei de estar ansioso para que o filme acabe no cinema; nunca mais senti o cheiro detestável do tabaco na roupa, no cabelo, na casa; perdi a ansiedade de não ter cigarros; estou fisicamente mais perto do meu filho; subo melhor uma escada. O balanço é positivo porque:

- Dei uma alegria grande ao meu filho e à minha mãe. Esses momentos, e o prolongamento que vão tendo ao longo destes anos, são reconfortantes e não têm preço.

- Não fiquei incapacitado, como receava... A ideia de fumar associada ao acto de escrever, trabalhar, estar concentrado, era tão forte, que admiti poder não conseguir trabalhar sem fumar. Falso. Consigo, claro.

- Eu não fumava por prazer (o que é excelente e eu recomendo...) – eu fumava sem princípio nem fim, sem lógica, apenas para satisfazer uma dependência. Talvez houvesse dois ou três cigarros diários que fumava com efectivo prazer – todos os outros davam apenas o pequeno prazer de suprir uma carência.

- Tenho a perfeita consciência de que fumadores como eu não têm meio-termo: ou seguem o seu rumo, ou deixam de vez. É uma escolha – eu fiz esta, estou convencido das vantagens da minha escolha, apesar dos sacrifícios e das penas. Fez bem à minha auto-estima a ideia de “ser capaz” – uma ideia difícil para quem fuma tanto e durante tanto tempo. Muitas vezes (até publicamente) afirmei que não seria capaz.

- Não me tornei fundamentalista, de todo. Mas confesso que sou hoje sensível à presença do tabaco como antes não era, e há locais onde vou menos por serem demasiado “atabacados” e outros onde passei a ir com gosto porque se respira melhor. Acho aliás curioso, nestes dias abafados de Verão, que nos espaços fechados se respire melhor do que à porta desses mesmos espaços...

- Deixei de fumar sem os medicamentos da moda nesta matéria, e também sem os pensos e os substitutos. Fui eu, uma hora a seguir à outra, um dia após o outro. Ansiolíticos, de vez em quando. Voltar a ignorar a colesterol e não me privar do prazer de comer, do prazer de beber. Deixar fluir...

- Apesar das más notícias lá de trás, à pergunta “sente falta do tabaco?”, a resposta é clara: “não”. Sinto falta do que sinto que me foi amputado, mas também sinto que não me faz falta para viver. E ser feliz.

E nesta dicotomia de sentimentos, todos os dias me sinto mais longe daquela dependência, todos os dias me sinto mais perto de uma qualquer ideia de liberdade. Porque, na verdade, em casos de dependência como o meu, fumar passou a ser, além de tudo o que se sabe, uma espécie de prisão - com liberdades condicionais pontuais para andar de avião, ir ao cinema, passear num museu... E não é bom viver assim. Mesmo nada bom.

Tenho pena, na verdade, de não ter conseguido nunca ser um fumador por prazer, sem qualquer espécie de dependência, como tantos que conheço.

Agora é tarde para recomeçar. Foi assim.

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