Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pedro Rolo Duarte

21
Ago08

Um país bipolar

 

As férias, por mais curtas que sejam, têm sempre a vantagem de nos permitir olhar o mundo com alguma distância. É a essa distância – algures entre a incredulidade e a verdadeira ignorância – que me ocorrem as seguintes perguntas soltas:
 

1. Vicente de Moura, manda-chuva dos nossos Olímpicos, anunciou há dois ou 3 dias que abandonava as suas funções, dado o insucesso da nossa missão, e o generoso número de alarvidades e inanidades proferidas por vários atletas. Hoje, com a medalha de ouro de Nelson Évora, Vicente de Moura diz que reconsidera e, se lhe pedirem com jeitinho, fica. Eu sei que aos desportistas se pede corpo e mente flexíveis – mas também faz parte ter a coluna vertebral flexível ao ponto de se enrolar sobre si própria?

 

2. Ao contrário do que sucede com uma selecção nacional de futebol, numa delegação olímpica o que se espera do seu desempenho não é um resultado colectivo, mas a presumível soma de resultados individuais. Nelson Évora não tem culpa de João Rodrigues, Emanuel Silva nunca viu a égua histérica, e Vanessa Fernandes nunca nadou ao lado de Daniela Inácio. Nessa medida, fará sentido julgar um colectivo e condená-lo pelas patetices de meia-duzia dos seus elementos? Ou será mais sensato criticar o Comité Olímpico, que prometeu resultados que não podia garantir, e ignorou que o mediatismo deste tipo de eventos obriga a algum investimento na formação dos atletas também para os momentos em que falam aos media?

 

3. Leio Pedro Sales, no blog Zero de conduta há dois dias: “A Austrália investe 33 vez mais dinheiro do que Portugal. Eles têm 35 medalhas, Portugal tem uma. Estas coisas contam. Têm a certeza que querem medalhas ou é só conversa?”. É óbvio que o dinheiro conta, mas alguém me pode dizer o valor do investimento olímpico do Zimbabué (4 medalhas até agora), da Bielorússia (13 medalhas), ou do Cazaquistão (8 medalhas)? Neste momento, a contabilidade coloca Portugal ao nível da Mongólia e da Estónia. Falamos apenas de dinheiro?

 

Estes Jogos Olímpicos – um pouco como os desempenhos mais recentes da Selecção Nacional de Futebol - deixam-me uma interrogação genérica, retórica, porém sentida: entre a medalha de ouro de Nelson Évora e o atleta que de manhã “é mais caminha”, não estará aqui o “esplendor de Portugal” – ou seja, a capacidade de oscilar entre o melhor e o pior num mesmo cenário, quase em sequência?

Um país bipolar? Eis o diagnóstico que fica dos sintomas que vou vendo. Distantemente, como convém em Agosto...

27 comentários

Comentar post

Pág. 1/2

Blog da semana

Ladrões de Bicicletas. Voltar a um dos mais clássicos blogues colectivos de análise e pensamento social e político e reencontrar excelentes textos, opiniões pensadas antes de escritas, e o prazer de um bom serão ao sofá a ler. Like.

Uma boa frase

“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais comentários e ideias

pedro.roloduarte@sapo.pt

Seguir

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2014
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2013
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2012
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2011
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2010
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2009
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2008
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2007
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D