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Pedro Rolo Duarte

05
Set08

Beldroegas

Ando muito enfastiado com a actualidade, com o costume, com mais do mesmo. Assaltos e crimes, professores aos gritos, o país está excelente mas não sei quê. Na mesma. As férias fazem bem porque mudamos de ares e pensamos noutras coisas, mas depois fazem mal porque preferíamos continuar de férias naqueles ares.

Por isso penso em beldroegas. Um dia, aqui há uns anos, comi uma sopa de beldroegas absolutamente deslumbrante em casa de um casal amigo. Só que o casal deu o berro, a cozinheira desapareceu, e nunca mais vi uma beldroega pela frente. Já tinha pensado nisso, e nos supermercados andava sempre a ver se o milagre da beldroega se dava. Mas não dava. Até que, nestas férias, no mercado hippie de Melides, um vendedor de “coisas da terra” me explicou como se fazia a sopa, confirmou que a beldroega cresce como erva daninha por tudo o que é sítio, mas entretanto “és de Lisboa e lá só cresce cimento”, dá cá um euro pelo molho de beldroegas. Dei.

Levei o molho para casa. Os dias passaram e não cozinhei, as beldroegas começaram a ficar com mau aspecto e acaba aí o primeiro episódio...

Mas não acaba a ideia fixa de voltar a experimentar aquela mistura de sabores.

Espanto dos espantos: de volta à cidade confronto-me, na zona dos produtos biológicos do Corte Inglês, com o notável trabalho de “Vasco Pinto e Agostinho”, que da Quinta das Lameiras (Vila Maior, São Pedro do Sul) para Lisboa fizeram o favor de transportar molhos de beldroegas (ensacados, mas viçosos...) para a minha felicidade. Nem queria acreditar. Mas tive de.

Enquanto encapuçados assaltavam bombas de gasolina, a Rebelde Way tentava a sua sorte no prime time e a Liga Sagres parecia a Liga antes de ser Sagres, eu estudava as receitas para fazer uma sopa de beldroegas.

Primeiro truque: só as folhas se aproveitam, para não amargar o cozinhado. Segundo truque: não é boa ideia salgar demasiado a sopa, dado que o queijo de cabra já tem sal que chegue. No limite, rectifica-se o sal no fim da operação, que de resto é simples e básica. Da mistura de várias receitas, e de algumas tentativas melhores ou piores, cheguei a este ponto:

Com paciência, seleccionam-se as folhas de beldroega. Lavam-se e, se houver paciência para tanto, passam-se por água muito quente.

Na panela, um fundo de azeite, três alhos grosseiramente partidos depois de descascados. Lume. Quando os alhos começam a dourar, acrescentam-se as folhas de beldroega, alguns minutos, até parecerem amolecidas pela gordura. Então, cobre-se com água até à altura desejada (no meu caso, um litro e meio para um molho generoso de beldroegas). Quando a água levanta fervura, acrescento um queijo de cabra (atabafado...), não muito salgado, partido em cubos pequenos. Há quem também acrescente batata de cozer, mas não gostei... Temperei com duas voltas de pimenta moída, uma colher de sopas de orégãos, e meia folha de louro.

Passado algum tempo – não sei calcular quanto, é melhor ir provando as folhas até que fiquem tenras e saborosas – juntei um ovo por comensal, para escalfar. Desliguei o lume e deixei a panela a acabar o trabalho. Servi sobre “cama” (uau, há tanto tempo que queria usar esta expressão...)... de pão alentejano velho cortado bem fininho.

Ficou excelente.

E assim adiei pensamentos banais sobre o estado da nação, que não se recomenda - mas isso já sabia antes de começar a pensar em beldroegas.

Além disso acho a palavra, quando dita, muito bonita: beldroega.

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