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Pedro Rolo Duarte

13
Set08

Há dez anos, a ponte

No domingo passado, pelas sete da tarde, televisão e rádio informavam os lisboetas sobre o estado do caos: havia filas de trânsito que íam da nova ponte até Queluz, estavam «entupidos» todos os acessos ao Montijo, era simplesmente infernal circular nas redondezas de algumas das vias que, longinquamente, «servissem» a «Vasco da Gama». Os repórteres, no entanto, não se cansavam de sublinhar o ar feliz dos automobilistas que circulavam a passo de caracol na mira de fazer os 18 quilómetros sobre o Tejo: «é uma festa, o buzinão é de alegria e felicidade», ouvi da boca de um jornalista.

Acredito que sim. A imprensa, a rádio e a televisão «cobriram» a inauguração com todas as honras e não deixaram de ressaltar a relevância da obra. Os governantes e ex-governantes elogiaram a capacidade de trabalho dos portugueses e falaram na «capacidade mobilizadora» que nos deve orgulhar. Qualquer cidadão normal sentiu uma pontinha de vaidade. Além disso, a ponte é muito elegante e bonita.

Só que já passaram umas horas sobre a inauguração. A ponte está lá. Mas agora acordamos do inebriante momento e temos um país novo, temos portugueses renovados? Não temos.

Por melhor que seja a obra, convém voltar à terra. Os portugueses não mudaram por causa de uma ponte: continuam a conduzir mal, e estima-se que o façam também em cima do tabuleiro; continuam a primar pela falta das mais elementares regras de civismo, pela mais absurda distância entre o seu mundo e o mundo onde vivem, pela indiferença face à política e aos políticos. A tentativa de fazer da nova ponte um «ícone» do novo Portugal é digna de um qualquer «ismo», a começar pelo cavaquismo. Mas é uma das mais terríveis armas demagógicas de arremesso. É verdade que concluir uma obra a tempo e horas, sem remendos nem improvisos, é um passo de gigante no país do desenrasca – mas só essa andorinha não faz a Primavera. Basta analisar o estado dos acessos à nova ponte para confirmar que, por detrás da engenharia, continua o mesmo país. E é também suficiente ver o entusiasmo luso por uma feijoada promovida por um detergente para reconhecer que o país não mudou.

No momento em que se festeja a nova travessia não sabemos com rigor até que ponto ela contribui para resolver o «abismo» que nos separa da «outra margem» do Tejo, como não sabemos da sua eficácia na fluidez do trânsito que sobrelota a Ponte 25 de Abril. Festejamos como se a obra, por si só, constituísse uma mudança – e esquecemos que a mudança está em nós, e não na obra. Quem faz de uma casa um espaço agradável é, em primeira análise, quem lá vive, não o arquitecto que a desenhou ou o engenheiro que a edificou.

O país anda histérico com almoços de 15 mil, pontes, a Expo aí à porta, a final da Chuva de Estrelas, a Gala da Nova Gente, as ambições do Benfica, os Globos de Ouro. Vive-se um momento de euforia que nos faz esquecer o essencial: somos os mesmos, somos estes e não outros, e não há obras públicas que nos valham quando, por exemplo, em matéria de educação, permanecemos a milhas de distância da «ponte» mais próxima.

As contas fazem-se para o ano, a mudança vê-se em décadas – e para o ano verificaremos que somos os mesmos, como as décadas têm mostrado que as auto-estradas não nos tornaram mais cultos. Permanecemos pobres e honrados. Gostamos do que gostamos na TV, lemos os jornais que lemos, e discutimos futebol enquanto cuspimos para o chão e destruímos a pontapé os novos caixotes de lixo que a Câmara nos «deu». Portugal continua a ser a soma de todos os portugueses e não umas toneladas de betão aqui e ali.

 

Reeditei este texto, originalmente publicado na revista Visão a 2 de Abril de 1998. Passaram 10 anos.

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