Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Aqui há dias, num jantar de amigos, um profissional de uma grande petrolífera, instado pelos presentes a explicar este “fenómeno do Entroncamento” que se traduz na súbita subida do preço dos combustíveis quando o barril aumenta, e na lentíssima descida quando o barril baixa, pediu quatro minutos de atenção e explicou a lógica deste mercado. Começou por antecipar que, mesmo entendendo a sua exposição, todos nós iríamos continuar a ver nas gasolineiras as más desta fita. Ainda assim, resumiu um complexo negócio embrulhado num teia de reacções em cadeia. Eu percebi a explicação dele, de resto corroborada por alguns blogs que sigo na net.

Ontem, começo a ver as reduções dos preços em todas as frentes e fiquei de novo baralhado. Ocorrem-me estas dúvidas...

  • Se é verdade que as descidas agora consumadas resultam da baixa do preço do barril de petróleo, então parece óbvio que podiam ter ocorrido há mais tempo. Alguém vai conseguir quantificar os lucros extra das petrolíferas nos dias que mediaram entre a queda do preço internacional e a “saia justa” em que se sentiram José Sócrates e Manuel Pinho e levaram o Governo a dar sinal de vida?
  • Se é verdade que as descidas foram provocadas por essa pressão do Governo nas diversas intervenções públicas sobre a matéria, estamos perante petrolíferas frouxas? Ou seja, é plausível que numa área de negócio extremamente forte, competitiva, variável e controlada por diversos reguladores, dois ou três discursos televisivos (e talvez uns tantos telefonemas...), mudem o curso do negócio, baixem os lucros, e ofereçam das empresas uma imagem medricas e assustadiça? Como analisam os accionistas das diversas empresas esta sequência de factos?
E por fim...
  • ... Se a convocatória da Deco para a “jornada de protesto” contra as empresas petrolíferas estava directamente relacionada com os preços dos combustíveis, a única atitude que lhe resta, neste momento, é desconvocar o seu ridículo protesto. Entre todos os discursos demagógicos que estas situações sempre convocam, o pior de todos será sempre aquele que exibe de si o que critica nos outros: défice de seriedade e rigor.




Comentários:
De Garcia a 23 de Setembro de 2008 às 15:25
Tal subida e descida de preços resulta de uma decisão das petrolíferas e não necessariamente do aumento ou depreciação do preço do petróleo.

Acho que deveria existir uma entidade reguladora que lançasse preços recomendados para a venda de gasolina e gasóleos aos consumidores finais. Assim, mesmo que as petrolíferas não seguissem as recomendações, todos saberiam onde começam e acabam as poucas vergonhas.

Tal entidade reguladora também deveria publicar o quanto o Estado está a ganhar com o aumento dos preços do gasóleo e gasolina.

"Parfois, il faut que tout change pour que tout reste le même"


De JASPC a 23 de Setembro de 2008 às 16:56
Por mais que os representantes das petrolíferas, nacionais e/ou internacionais, tentem explicar, a única coisa que continuo a perceber é que a composição do preço dos combustíveis, cá como lá fora, proporciona a mais diversas jogatanas, que os governos também aproveitam, embora em menor escala. O que eu sei é que, segundo elementos recolhidos no site do Ministério da Industria Espanhola, comparado os valores de janeiro de 2004 com julho de 2008, temos:
Em janeiro de 2004 o gasóleo em Portugal custava 0,70 eur, dos quais 0,412 eram impostos (iva e isp), o que representava 58,85% do preço total. Em julho de 2008 o preço médio do gasóleo em Portugal foi de 1,424 eur, dos quais 0,606 são impotos (iva e isp), representando 42,55% do preço. Ainda assim verifica-se um aumento da carga fiscal de 0,194 eur ou seja 47,08%. Bem menos do que aumentou o preço do combustível sem impostos que, basta fazerem as contas, aumentou de 0,288 eur para 0,818 eur, ou seja 184,02%.
Outro facto curioso: em janeiro de 2004 o brent cotou à media de 31,23 usd, com o dólar a valer 0,793 eur. Ou seja em eur o barril brent valia 24,77 eur.
Em julho de 2008, o brent cotou em média a 112,77 usd, com o dólar a valor 0,634. O barril valia então para nós 71,49 eur. A diferença do barril é então de 46,72 eur, ou seja 188,61%, muito próximo portanto do aumento verificado na bomba.
Quero com isto dizer que, como se vê, para aumentar a referência é esta (apesar das explicações mais ou menos mirambolantes que os "petrolíferos" vão dando), quando é ser para baixar, as explicações ganham ainda formatos mais elaborados. Depois o presidente da GALP não gosta que lhes chamem ladrões ? A mulher de César não basta ser séria, tem que parecer. E eles parecem pouco.
Para finalizar. Em janeiro de 2004 começou a liberalização em Portugal. O preço de então do gasóleo (0,70 eur) era o 3º mais barato da UE de então. Em julho de 2008 é apenas o 10º mais barato.
Neste caso, como em muitos outros, os consumidores portugueses pagam ao nível europeu, recebem bem menos e são administrados nas suas empresas por pessoas que recebem ao nível dos USA. Ou mais.


De rff a 23 de Setembro de 2008 às 18:03
Chama-se liberalismo económico, nada mais que isso....
O estado cometeu um erro ao liberalizar o sector e ao voltar atrás está a interferir no que não devia. Obviamente como consumidor final fico satisfeito com está intromissão estatal, ainda que tardia….


De A. a 24 de Setembro de 2008 às 00:36
...


"Se vogliamo che tutto rimanga come è, bisogna che tutto cambi."




De Charlie a 24 de Setembro de 2008 às 16:03
Olá-
Em primeiro lugar, os preços estão "liberalizados" o que quer dizer apenas isto; as petrolíferas podem vender ao preço que quiserem. O que seria óptimo se o País tivesse a modernamente chamada "massa crítica". Ou seja, que tivesse um mercado suficientemente expressivo de consumidores / sistema fiscal que tornasse apelativa uma concorrência alargada.
Da forma que as coisas estão, somos uma pequena presa da qual é preciso espremer rapidamente todo o sumo antes que a seca chegue.
Como sempre acontece, na mercearia do bairro, o vizinho ricaço leva além do desconto, uma lembrança de oferta enquanto os clientes da chapa lambida são diariamente roubados tanto no peso como no preço. E roubados depressa porque amanhã podem já não ter dinheiro..


De ALEXANDRA a 24 de Setembro de 2008 às 22:07
especuladores à parte, eu estou curiosa sim com a atitude que a DECO vai ter agora (aliás, nunca esperei que tivesse tão pouca "cabeça" e fizesse um apelo de boicote, tão ridículo - que tristeza...)


De eduardo encarnação a 24 de Setembro de 2008 às 23:15
"get out of advertising. to be original, seek out your inspiration from unexpected sources."
a verdade é que por demais especialistas que encontre à ceia...nunca lhe dirão nada que não tenha já percebido.
a verdade é que independentemente da subida ou da descida do crrrrrrrrrude, o preço cá será sempre diferente do preço de lá, seja isso onde for.
e não vale a pena perguntar aos experts porque lhe dirão todos o mesmo...ou o seu contrário.
tive uma professora em frança que dizia que gostava muito dos alunos que gostavam da littératuuuuuuure!!!
e a mamã disse, durante anos a fio, que se tínhamos alguma coisa em portugal de que nos pudéssemos orgulhar devíamos estar gratos ao homem do drilling: calouste gulbenkian, o sr. 5%.
o resto é um mundo prestes a dar lugar a outro.
a economia baseada no petróleo e na construção civil estás prestes a desaparecer.
não é só por cá que esvoaçam patos-bravos.
ou diz-se pato-bravos?
termino com um agradecimento ao pedro que permite estes devaneios e deixo aos transeuntes uma célebre frase do peninha, um herói dos quadradinhos:
na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se copia.


De Carlos Duarte a 24 de Setembro de 2008 às 23:42
Caro Pedro Rolo Duarte,

Ainda bem que percebeu. Fez mais que a maioria das pessoas que pensam que comprar petróleo e vender refinados (sim, porque a GALP não vende "petróleo") é como quem compra batatas a um grossista e as vai vender na mercearia...

Quanto à DECO, vamos pagar bem cara a imbecilidade completa que essa organização tem em termos energéticos: agora é o petróleo, estou para ver quando for a tarifa de electricidade (que, para quem não sabe, estamos a pagar cerca de 3 vezes ABAIXO do preço de mercado... o resto irá sair de impostos - pós-eleições).


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