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Pedro Rolo Duarte

04
Out08

O momento decisivo

Há uns anos, quando li pela primeira vez a ideia do «momento decisivo» de Henri Cartier-Bresson, escrevi uma crónica sobre o silêncio. Melhor: sobre um instante único, mágico, revelador, que tinha vivido num final de tarde. Esse instante, que durou segundos, aconteceu quando, num vale aberto e amplo onde pastavam vacas, havia crianças a correr, adultos a conversar, e ao longe ouvia-se o ruído surdo do trânsito numa estrada, subitamente, sem que fosse combinado ou pedido, sem aviso nem razão, se fez silêncio absoluto. A coincidência foi brutal: por momentos, as crianças calaram-se, bem como os adultos, os badalos das vacas silenciaram-se, os pássaros, os carros, as motos, aquele zumbido dos insectos que sempre persiste, tudo, rigorosamente tudo ficou em silêncio. Eu «ouvi» aquele silêncio esmagador e senti uma paz e uma tranquilidade únicas. E lembrei-me dessa expressão que tinha lido meses antes - «momento decisivo». Daí para a frente passou a fazer parte dos meus dias. Pelo menos, daqueles dias em que sinto que há um instante que se fixa, que fica retido na memória ou no olhar, um instante que se destaca, que se «desprende» do tempo e, como uma fotografia, exactamente como uma imagem, fica impresso no estranho caderno das memórias soltas que todos arrastamos pela vida.
 
O MOMENTO DECISIVO (II)

Revejo agora dezenas de fotografias de Cartier-Bresson. Muitas já conhecia, outras são «novas» para mim. Durante uma noite e uma manhã, escolho esta e aquela, apago outra, retomo uma que tinha deixado para trás porque entretanto lhe «senti» sequência com mais aquela que entretanto seleccionara. Por todas estas fotografias passa esse «momento decisivo»: o fotógrafo regista, destaca da realidade aquele bocado de tempo, mas ao fazê-lo tem a «delicadeza» de não interferir, de não se imiscuir, de nem sequer se aproximar. Ele regista quadros, como um coleccionador de selos junta cuidadosamente as estampilhas. Ele procura que cada imagem seja «praticamente» o olhar, o que os olhos vêem, o que ali «está». As suas fotografias não «são», «estão». A eternidade que lhes damos apenas reforça a condição frágil do «momento decisivo».

 
O MOMENTO DECISIVO (III)

Parecem tão fáceis, estas fotografias – mas nunca antes nem depois alguém as conseguiu como ele as conseguiu. Nesse «pequena» nuance está a distância que vai do talento ao génio. Parecem tão frágeis, estas fotografias – mas estranhamente, sentimos nelas uma força extraordinária, intensa, sólida como uma rocha.

 
O MOMENTO DECISIVO (IV)

Aprendemos na escola: todas as imagens têm um ângulo, um autor, uma abordagem – e nessas circunstâncias, todas as imagens reflectem uma ideia, ou uma ideologia, uma forma de pensar que «escorrega» para a forma de ver. É óbvio. Mas não é necessariamente por essa via que se «descobre» o pensamento de Cartier-Bresson. As suas escolhas são «empenhadas», mas não são asfixiadas pelo pensamento; são políticas, mas não são militantes; são opinativas, mas não são fundamentalistas. Gosta do Homem mas desconfia seriamente da sociedade. Esse amor e essa desconfiança estão lá, no seu olhar passado a papel fotográfico. Esse amor e essa desconfiança, aliados à capacidade humilde de se surpreender, fazem parte do segredo do génio. E por mais humilde que tentasse ser em relação ao seu «pequeno metier», Cartier-Bresson sabia bem o que o distinguia. Sabia bem o que valia o seu olhar.

 
O MOMENTO DECISIVO (V)

O que vale um olhar? O que vale uma fotografia? O que vale uma imagem? Aferir esse valor neste universo obriga a deixar de lado os autores, os criadores, os fotógrafos, e percorrer meticulosamente o longo caminho que trouxe a imprensa ao que ela é hoje. De um tempo em que a imagem era desvalorizada ao ponto de servir basicamente para «tapar os buracos» deixados pelo texto, ao tempo em que é hipervalorizada e finalmente reconhecida, em simultâneo, como arte e informação. A fotografia na imprensa atravessou um penoso deserto, felizmente quebrado por oásis como a «Life», nos Estados Unidos da América, a «Manchete», no Brasil, ou a primeira fase da «Paris Match» francesa. Foram revistas como essas, conceitos de imagem como o que lhes estavam subjacentes, que permitiram que o trabalho de nomes como Cartier-Bresson ganhasse efectivo valor. Ou seja, tivesse do talento e do génio o reflexo público e a exposição respeitável que lhes correspondia. Na esmagadora maioria dos jornais e revistas da segunda metade do séxulo XX, a imagem correspondia ao «intervalo» do cinema: uma pausa no texto, para «aliviar». Tudo mudou nas últimas duas décadas. Felizmente, tudo mudou.

 
O MOMENTO DECISIVO (VI)

Nasci nesta profissão num tempo em que às fotografias se chamavam «bonecos» ou «chapas». Mais do que um tratamento depreciativo, era uma forma de mostrar a irrelevância que significavam para os editores de então. Qualquer um podia ser fotógrafo, e o preto e branco era uma condição – obviamente odiada – e nunca uma escolha. Em Portugal, depois das experiências vagamente bem sucedidas das revistas «Flama» e «Século Ilustrado» - que pelas inovações tecnológicas do off-set e da cor foram forçadas, sem grandes conhecimentos ou profissionalismo, a uma atenção especial à fotografia -, a imprensa teve sempre uma generosa falta de respeito pela fotografia. Os bons fotógrafos saíram de Portugal, ou dedicaram-se exclusivamente à fotografia artística. Felizmente, um dia nasceu um jornal chamado «O Independente», e depois dele uma revista chamada «Capa». Aos dois títulos devemos o respeito que hoje, apesar de tudo, a imagem merece na imprensa. Aos dois títulos devemos a emergência de uma geração de profissionais de fotografia absolutamente nova, de excelência, e cujo olhar pôde ser desenvolvido livremente, respeitado e admirado.

Para voltar à questão anterior: qual é o valor de uma imagem? Pode ser, para os puristas e as elites, o valor intrínseco que tem. Para mim, o valor só é efectivamente «contado» no momento em que uma imagem é alcançada por muita, potencialmente por toda a gente. Cartier-Bresson teve a felicidade de, em vida, poder testemunhar o crescimento das suas fotografias para lá do seu pequeno mundo – e foi consagrado no dia em que imagens de sua autoria deixaram de existir por ele, para passarem a viver por «conta própria», como ícones, como símbolos, como bocados de História.

 
O MOMENTO DECISIVO (VII)

Quando o DNA nasceu, entre muitos princípios e intenções, entre muitos sonhos e projectos, houve uma ideia firme, fixa e inquebrável. Ousada, apenas por ser incomum no nosso mercado. Óbvia, para quem entende o jornalismo como a soma de tudo o que integra uma publicação, publicidade incluída. Essa ideia era esta: palavra e imagem têm rigorosamente o mesmo valor. Nem uma imagem vale por mil palavra, nem mil palavras valem por uma imagem. O espaço deve ser ocupado pelo que «diz» mais, pelo que comunica melhor, pelo que traduz mais exactamente o que temos para contar. Se um conjunto de imagens diz tudo o que, escrevendo, talvez nem conseguíssemos dizer, então esse conjunto faz uma edição inteira, como já sucedeu. Se um texto é exemplar e não carece de «ilustração», faça-se do texto o rei e senhor. Se a conjugação é possível, por aí vamos. Este «ideal» tem sido cumprido, semana a semana, ao longo destas mais de 400 semanas. É talvez o nosso maior orgulho, a nossa coerência mais profunda. E o sinal mais explícito do que nos move, do que nos entusiasma, do que mexe diariamente com estas páginas: o amor ao papel impresso. Quando realmente se ama profundamente, dá-se tudo sem esperar pelo «troco». Eu dou. Nós damos.

 

Texto editado a partir do original, publicado em Agosto de 2004 no Suplemento DNA do jornal Diário de Notícias.

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