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Pedro Rolo Duarte

01
Dez07

O elogio da rotina

(Ao sábado, aqui no blog, reedições. No Verão de 2005 publiquei esta crónica na revista “Lux Woman”. Para mim, era apenas mais uma crónica, ainda por cima sobre um tema aparentemente banal,  já visto e revisto. Pois bem: dos tempos do Diário de Notícias aos da Visão, da Kapa à Capital, acho que nunca na minha vida recebi tantos mails, mensagens e cartas sobre algo que tenha publicado do que aqueles que ainda hoje, de vez em quando, recebo por causa deste texto.
Ou melhor, por ter elogiado a rotina...)
 
Quando se fala de relações amorosas, de casamento, de amor, há uma palavra que se transforma subitamente em palavrão e parece ser o papão maior e mais assustador de um casal: rotina.
O substantivo feminino “rotina”, que significa na Diciopédia “caminho já sabido ou habitualmente trilhado; hábito de fazer as coisas sempre da mesma maneira; prática constante”, é vilipendiado pelos “consultores emocionais”, pelos psicólogos que adoram dar palpites (há psicólogos excelentes, mas esses em geral fazem perguntas antes de opinarem), e pelos casais em crise, não falando já dos recém-divorciados que culpam a rotina pelo estado a que chegou o casamento. Aliás, “quebrar a rotina” constitui o mais banal e repetido conselho que se dá aos casais para eternizarem as relações – quantas vezes o lemos ou ouvimos ao longo da vida?
É melhor começar então por esclarecer um ponto: só se pode quebrar uma regra se ela efectivamente existir. Por outro lado, em geral, construímos para as nossas vidas as regras e os hábitos que nos dão jeito, que são práticos, e sem os quais não vivemos tão confortavelmente. Escolhemos essas regras em função da conveniência ou do gosto. Dito de outro modo: as rotinas das nossas vidas são por nós criadas. Em geral, de comum acordo. Aqui chegados, podemos começar por reconhecer que a “rotina” é uma das coisas boas da nossa vida. Eu não vivo sem as minhas rotinas matinais, sem os meus pequenos “truques” e “manias”. E agora chega o momento de chocar os leitores e as leitoras: eu até acho que uma das grandes qualidades do casamento é justamente a criação e manutenção da rotina.
Criar rotinas exige da nossa parte atenção, método, e alguma sensatez. No casamento, isso significa segurança, garantia de fiabilidade, muitas vezes rigor e ordem. Saber que o gesto automático resulta numa resposta automática que satisfaz integralmente a nossa expectativa é deslumbrante. A rotina do café de manhã, a rotina do banho e da barba, a rotina do jornal e do carro, a rotina do beijo ao filho, do beijo à mulher. A rotina do regresso a casa, a rotina de quem acende a lareira, de quem cozinha, de quem faz a caipirinha perfeita. A rotina de estudar com o filho, ou de fazer com ele a cidade de Legos sempre tão desejada. A rotina do cinema à terça-feira, a rotina do frango de churrasco no regresso da praia, a rotina da praia. A rotina das sanduíches na praia. Até a rotina da discussão sobre o cinzeiro por despejar...
Pensar na relação amorosa que temos ou tivemos passa necessariamente por estes pequenos nadas de que dizemos mal mas dos quais, no fundo, dependemos. A rotina pode e deve ser quebrada – mas não devemos desmerecê-la nem acusá-la de ser a mãe de todos os divórcios. Porque...
... Um dia separamo-nos, divorciamo-nos, todas as rotinas mudam – mas a rotina de que temos mais saudades é justamente aquela que sempre criticámos e entretanto perdemos. Durante muito tempo, só pensamos no “bem bom” daqueles hábitos que davam ordem e sentido aos dias, que nos orientavam e serviam de corrimão para as horas.
Aos poucos, criamos novos hábitos, e afeiçoamo-nos a rotinas solitárias ou pelo menos diferentes. Com elas matamos as saudades das antigas e voltamos a ter o tal corrimão que parecia definitivamente perdido. De novo, quando quebramos as rotinas, temos um gosto especial nesse acto – mas esse é exactamente o mesmo gosto que nos leva a, mais tarde, ter saudades da rotina que quebrámos. E a roda não pára...

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“O centrão político - conservadores, liberais, social-democratas, trabalhistas - anda há mais de vinte anos a liberalizar os movimentos de capitais, a desregulamentar as actividades financeiras, a promover o "comércio livre", menorizando as consequências resdistributivas destas opções. Andaram a promover a ideia de que o mundo é mais bem gerido pela "mão invisível" dos mercados do que pelos poderes democraticamente eleitos. De que é que precisam mais para perceber que este é o resultado da sua globalização: que Marine Le Pen vença as presidenciais francesas?" Ricardo Paes Mamede, Ladrões de Bicicletas

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