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Pedro Rolo Duarte

28
Nov08

O nome da rua

Ia num táxi, a caminho de um jantar, e estava um bocado irritado porque o motorista tinha o rádio num volume elevado e ensaiava conciliar o inconciliável, ou seja o rádio ligado em simultâneo com aquele aparelho que liga à “central”, e onde uma expedita funcionária debita nomes de ruas e clama por “móveis” que tantas vezes parecem “imóveis”.

Preparava-me para pedir que baixasse o som da grafonola quando ouvi a distribuidora de serviços pedir “um móvel” à Rua Helena Vaz da Silva. O motorista não ligou, estávamos a caminho do Bairro Alto, mas eu fiquei petrificado. Rua Helena Vaz da Silva?

Sim. Fica na “Alta de Lisboa” a rua que leva o nome de Helena Vaz da Silva, a mulher que conheci no Centro Nacional de Cultura, que admirei pela dedicação às causas e às coisas da cultura. Helena morreu, em 2002, cedo demais, naquele patamar de injustiça que nos rouba pessoas que fazem falta, que alimentam projectos, que vivem no optimismo do dia seguinte.

Mas esse mesmo optimismo do dia seguinte é cruel para com aqueles que partem. O tempo vai passando e, naturalmente, os seus nomes são menos convocados, menos lembrados, menos revividos. Não perdem a relevância, mas a saudade adocica-se e distende-se.

Não me lembrava de Helena Vaz da Silva há algum tempo. Mas repentinamente, numa noite sem história, dentro de um táxi, a voz da telefonista a pedir o “móvel” àquela rua, recuperou-me a figura de Helena, a sua obra, a falta que nos faz.

Percebi, nesse momento, como se pode – como se deve - perpetuar um nome. Um nome numa rua. Pode não dizer nada a quem lá vive – eu morei numa Rua Ana de Castro Osório que só soube ter sido escritora muito tempo depois de ter mudado de casa... -, mas eterniza uma memória, e acorda os contemporâneos para a lembrança.

Se eu pudesse, telefonava a quem, naquela noite sem história, pediu um táxi à rua que tem o nome de uma pessoa que me sabe bem lembrar e trazer até uma crónica impressa. Agradeceria essa feliz coincidência, se é que as coincidências existem. E contaria ao morador daquela rua que nessa curta viagem de táxi pensei que Lisboa merecia ter um prémio com o nome de Helena Vaz da Silva. Um prémio a quem melhor soubesse herdar a ideia dos “Passeios de Domingo”, talvez. Ou um prémio “Gentil”, o outro apelido (verdadeiro!) desta mulher, e um dos que melhor se lhe aplica.

Mais tarde, em casa, encontrei um texto de Guilherme d’Oliveira Martins em que recorda que Helena dizia que os seus textos eram como “pequenas pedras que vou semeando”, “pedras como a do Polegarzinho – do conto da nossa infância – que se deitam para ajudar a reconhecer o caminho; pedras como a que se lança quando se começa a fazer uma casa; pedras brancas e de cor para dar brilho ao nosso dia a dia ou para lhe acentuar os contornos”.

Nesse caminho, Helena acabou por desenhar também, sem o saber, uma rua com o seu nome, e a possibilidade de um dia, na noite da cidade, eu ouvir dizê-lo bem alto - “Rua Helena Vaz da Silva” - e deste modo reconhecer que a existência para lá da vida faz sentido.

Fiquei grato a quem se lembrou de lhe dar nome de rua. Devemos isso aos melhores de entre todos. E saber onde “está” Helena Vaz da Silva é reconciliar-me por instantes com este lugar onde vivo. Mesmo que dure pouco, enquanto dura é como o sol: aquece e marca. De alguma forma, contraria o mundo que Helena caracterizou como “de portas e coração trancado, assestado para o êxito, a imagem, o agradável, o curto prazo”. Resistir à rendição continua a ser um excelente princípio.

 

Texto originalmente publicado na revista Lux Woman

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